Os chatos,
por Laerte Braga
O jornalista José Simão
tem feito referências diárias ao programa “Casa dos Artistas”
do SBT, com ênfase na extraordinária capacidade do ator/atleta
Alexandre Frota de conseguir falar quatro ou cinco palavras e, progressivamente,
ao que parece, ir acrescentando uma ou outra, a cada dia. A julgar pelas
últimas colunas de José Simão, o ator/atleta teria
reclamado da “perseguição”. Seria inveja do sucesso.
Anos atrás,
na Câmara Municipal de Juiz de Fora, uma vereadora promoveu farta
distribuição de material escolar. As dependências do
Legislativo ficaram lotadas, as filas atingiam algo em torno de 600 metros
de comprimento. Criticada por estar distribuindo material de um programa
do governo como se seu fora, doação sua, proclamou da tribuna
que “o senhor está é com inveja do meu sucesso”, referindo-se
ao vereador que denunciara a irregularidade (registre-se que o marido dela
era o prefeito da cidade).
A explosão da
Carla Perez/bunda, ou da bunda/Carla Perez e as centenas de concursos para
a escolha de musas do “Tchan”, substitutas, clones etc, levou Artur Xexeo,
ainda no “JB”, a escrever uma bem humorada crônica em que um pai
e uma mãe manifestavam sua desaprovação a atitude
da filha de virar professora. Sugeriram, os pais/personagens, que a moça
fosse dar formas e contornos à bunda para que conseguisse êxito,
vencer na vida.
Uma das características
da sociedade atual é a banalização de tudo e de todos.
Vive-se na superfície. Enxerga-se o marrom glacé, mas o que
está em baixo é detalhe, não significa nada.
Vinícius de
Moraes, numa de suas músicas, afirma que, numa determinada situação,
“...o infarto/ou pior, o psiquiatra...” São situações
assim em que a pessoa, ou pessoas, atribuem crédito de verdade absoluta
ao vácuo que permeia sua existência. Acha que a verdade começa
e termina no “Jornal Nacional”.
O capitalismo, globalizado
segundo os interesses das classes dominantes, constitui-se como quê
um permanente estupro aos direitos individuais. As pessoas são perpassadas
por algo como a necessidade do sucesso e acabam por aceitar esse estupro,
essa lógica cínica e cruel.
E quando o trabalhador
entra numa loja e compra determinada marca de cigarros pela simples razão
que a publicidade associa-a a palavrinha mágica: sucesso. É
só fumar que o Monte Everest está ao alcance das mãos
e, certamente, trezentas louras estarão no topo à espera
do “felizardo”.
É fácil
entender, por aí, a razão da violência contra a mulher:
o sujeito chega em casa depois de umas tragas e não encontra loura
alguma, mas alguém que exausta do trabalho diário não
lhe inspira mais que vontade de tomar umas. Toma e cobra a dita no pau.
Terminam numa delegacia de mulheres.
Ou o contrário:
quando a mulher aceita a condição de objeto, despe-se de
suas características humanas e vai para a rua disputar emprego de
modelo exibindo seios e bundas. E chama isso de conquista.
A futilidade e a banalidade
transformaram a capacidade de pensar em algo chato. A perseguição
pelos 15 minutos de glória, de sucesso, virou a razão de
ser, a essência da vida. O momento de glória vai ser eternizado
em fotos, numa fita para os amigos, mais cedo ou mais tarde o mal dos tempos
modernos, a depressão, vem e as pessoas não encontram explicações.
Claro, como pode uma vida de “sucessos” terminar assim?
Uma dos documentos
jornalísticos mais importantes sobre esse assunto foi produzido
há anos, justiça seja feita, pelo “Fantástico”, mostrando
um grito tímido, mas apavorado, de socorro, feito por uma mulher,
que assaltada e violentada por um bandido, acostumou-se com a visita do
próprio, várias vezes, sem força e sem vontade de
reagir, pois, na sua óptica, seria inútil, já que
se o fizesse, poderia vir a ser morta.
As pessoas não
percebem que são assaltadas e violentadas todos os dias.
Millôr Fernandes,
quando das desapropriações para a construção
da Linha Vermelha no Rio de Janeiro, indignou-se com a forma como eram
tratados os desapropriados. Afirmou que era o triunfo do automóvel
sobre a vida. Sobre o ser humano. As pessoas abrem suas janelas e a vista
é a de carros passando e poluindo, destruindo a vida em nome do
progresso.
O gesto de ajudar alguém
a atravessar uma rua é ridículo aos olhos dos novos tempos
e das pessoas moldadas na crença do triunfo do mais forte como valor
absoluto de vida. Não conseguem perceber, minimamente, que serão
atirados num depósito de bagaços ao cabo de algum tempo.
A ação
do governo de FHC se dá nesse sentido: o de transformar pessoas
em instrumentos/objetos do poder das elites. E assim, em boa parte do mundo.
Mílton Santos afirma que a grande verdade hoje é a da publicidade.
O sujeito crê, piamente, que determinada marca de calça jeans
o transforma em ser livre.
FHC é apenas
um instrumento visível dessa ordem/sucesso. O poder vem de um idiota,
George Bush, instrumento/boçal das elites financeiras/petrolíferas/etc
etc.
Os que pensam, não
importa se errados ou certos; os que reagem e teimam em manter-se humanos,
vivos, livres; os que não submetem-se e não se deixam coisificar,
esses são os chatos. São os que interferem nos brilhos
e paetês dos sucessos medíocres de bundas, ou de no máximo
quatro ou cinco palavras. Por menores que sejam. Mas resistem.
Isso é a barbárie.
Seja nas burdas no Afeganistão, por conta do atraso e do fundamentalismo
fanático ditado pela religião interpretada de maneira doentia.
Ou seja nos opostos dos seios e bundas a mostra, no pressuposto da liberdade.
O fundamentalismo do sucesso, que, acaba por deitar-se nos divãs
da vida. Ou por mergulhar na banheira de lama do Gugu.
A barbárie regada
a bombas, ou a caviar. É a submissão ao jeito “McDonnald’s”
de viver.
Anos atrás alguns
cientistas sociais costumavam dizer que as pessoas viviam numa espantosa
velocidade por conta da guerra fria. A sensação que cada
dia era o último, que a qualquer momento uma chuva de ogivas múltiplas
traria o horror nuclear.
Foi substituído
pelo horror das bombas ‘inteligentes’. Pela destruição crescente
e deliberada do ser humano, transformando-o em apertador de parafusos.
Trabalhe ele na “Ford” ou cultue o sucesso, elevado à condição
de altar do dia a dia. Ali reverenciam o nada e crêem-se repletos
de tudo.
É compreensível
que quem resista seja chato. Nem todo mundo está disposto a brigar
na lama por quinze minutos de glória e sucesso. É preferível
ser chato.
Laerte
Braga
Consciência.Net