O plebiscito
sobre a Alca, por Laerte Braga
A proposta de realizar, neste
ano, no segundo semestre, um plebiscito sobre a ALCA – Área de Livre
Comércio das Américas – seria um dever dos governantes em
toda a América Latina, não fossem eles meros governadores
gerais dos interesses norte-americanos, a exceção de Castro
e Chaves.
Não é aceitável
que uma decisão desse porte, que anula qualquer perspectiva de projetos
próprios das nações do continente, seja tomada no
âmbito de governantes notoriamente corruptos e a serviço dos
principais “acionistas” do quintal do Império.
Os anos FHC, no Brasil,
por exemplo, significaram e continuam significando o desmanche do Estado
brasileiro, sua privatização (os maiores acionistas são
os bancos internacionais, especuladores como Soros, que controla o presidente
do Banco Central) e a conseqüente transformação de uma
das mais promissoras nações do mundo em mero entreposto do
capital estrangeiro.
Os vagidos de independência
de FHC, aqui e ali, como recentemente na França, na ONU e agora
na Rússia, são apenas boutades por conta do estilo ríspido
e grosseiro de Bush, que não disfarça, em momento algum,
o fato de estar lidando não com chefes de Estados ou Governos, mas
funcionários mais ou menos qualificados dos norte-americanos.
Quer que seja com vaselina,
como nos tempos de Clinton, e não com areia.
Sem falar na característica
deste ano para os brasileiros: ano eleitoral. Vamos escolher entre continuarmos
com um governador geral ou, de fato, elegermos um presidente. O que
está cada dia mais difícil.
O plebiscito sobre a ALCA
ultrapassa os debates em torno da proposta norte-americana e alcança
questões de suma importância para países como o Brasil.
Como retomar os destinos do País e construi-lo segundo nossos interesses,
sem perda da fraternidade e solidariedade, sobretudo com os povos do continente
latino americano e do resto do mundo, ou, simplesmente, sucumbir e deixar
de existir como nação soberana.
Setores do Partido dos
Trabalhadores (à direita) temem que a mobilização
e o debate prejudiquem a candidatura de Lula e tragam de volta o que chamam
de fantasmas socialistas, que consideram enterrados.
Na cegueira de imaginar
que campanha política é o mesmo que campanha para vender
um sabão que tira todas as manchas; de criar condições
para que as elites não temam o reformismo compreendido em políticas
sociais pouco explicitadas, deixam de compreender que perdem a identidade,
rasgam a história das lutas populares nos últimos anos, desde
os momentos que antecederam o fim do regime militar e que, ao final, as
elites vão continuar a preferir os originais (Roseana ou Serra).
Cópias não costumam ser de boa qualidade.
A ALCA é o passo
decisivo no processo de dominação da América Latina.
Nos termos em que está proposta, transforma-nos, a todos, em consumidores
de manteiga de amendoim e condenados, eternamente, a sanduíches
do McDonnald’s.
Gera desempregos, em níveis
estupidamente acima dos já existentes, que são os maiores
de nossa história. Acaba com perspectivas de desenvolvimento
industrial, tecnológico, viramos apêndice, apenas apêndice
(um órgão sem função alguma) dos donos. Do
Império.
A mobilização
de forças populares, de todo o conjunto de “lutadores do povo”,
para usar uma expressão do editor César Benjamin, no momento
em que países como a Argentina vive a mais grave crise de sua história
(proposital, a partir de uma elite podre). Liquidada pela submissão
de bandidos como Menen, ineptos como De La Rúa. Que o governante
venezuelano Hugo Chaves começa a sentir o tacão da bota fascista
e insana de George Bush (os cachorros dele não ficaram espantados
ao vê-lo cair. Já estão acostumados com as bebedeiras.
Ficaram isso sim, como todo cachorro de bêbado: esperando o “boss”
levantar), essa mobilização é vital.
A proximidade do Fórum
Social Mundial e sua importância, até porque na capital de
um Estado com características históricas de luta, de garra
e determinação, enseja a discussão do assunto.
Tem prioridade sobre sexo
dos anjos, políticas cambiais, proteínas de rã, efeito
da soja, etc, etc, passeatas com bandeiras confeccionadas pela Maison Dior,
pois é questão de sobrevivência de países como
o Brasil.
E antes de ser desfile
de alas sociais democratas numa escola de samba (para usar a imagem de
uma amiga muito querida) de dançarinos e dançarinas de polca
e mazurca, cinturas duras, fator decisivo para sabermos se continuamos
Brasil. Se os irmãos latinos americanos continuam cada qual com
sua identidade, ou vamos dançar e virarmos comedores de “pretzel”.
O plebiscito sobre a ALCA
e tudo o que ele proporciona é mais importante para a organização
popular e a resistência ao capitalismo, que eventuais vitórias
de Pirro em shows eleitorais, onde marqueteiros vendem produtos e não
candidatos ou programas. Roseana Sarney, por exemplo, vem de “a número
um”, ou seja, de Brahma, uma das marcas de cerveja mais vendidas no Brasil.
Lula não pode vir
de “O Fluxo Continua”, um enredo desenhado pela direita do PT e que sinaliza
no pagamento da dívida externa e muito menos achar que discutir
a ALCA com os americanos é possível. Se ontem era difícil,
hoje, é como entrar na jaula e tentar convencer o leão, insano
e ainda por cima bêbado, a não nos devorar.
Ou acreditar que Taxa
Tobin é programa contra a pobreza.
O mineiro Laerte
Braga é jornalista e analista político.
Consciência.Net