| Reforma da Previdência: achaque
dos tempos de FHC
Laerte Braga, 7 de abril de 2003 Posso queimar a língua, mas os quase quatro meses de governo Lula mostram-se uma balela total e absoluta. O presidente não fez mais que churrascos, cuidar de Michele, jogar futebol e seguir à risca o receituário do FMI, que é também o que foi feito por FHC nos seus oito anos. Salva-se a política externa, dirão alguns. Qual alternativa ele tinha? Aceitar as imposições de Bush e sua organização terrorista? Seria a total e completa desmoralização. Lula começa a lembrar Lech Walessa, líder operário e presidente da Polônia. Foi decisivo na derrubada de um regime totalitário, um fracasso na condução das mudanças políticas propostas. Resultado: a Polônia, hoje, está pior que antes, os grandes beneficiados foram só as elites. A burocracia do Partido Comunista transformou se em grupos de banqueiros, empresários, concessionários de serviços públicos, etc. Os trabalhadores continuam na mesma. O que se pensava fosse um gigante, era apenas um anão. Lula começa a dar essa sensação. A reforma da Previdência é uma dessas propostas que choca e descaracteriza um governo eleito por dizer que tudo precisava mudar. A declaração de Lula que “na oposição dá para fazer uma bravata”, por mais sincera que seja, é infantil, mostra um presidente despreparado e aceitando tacitamente todo o procedimento podre e corrupto dos oito anos de Fernando Henrique. Essa história da Previdência foi milimetricamente tratada por César Benjamin, desde a questão conceitual, até aos dados, muito deles deliberadamente omitidos pelo governo e nesta segunda-feira, para usar uma expressão bem atual, detonada pela deputada Alice Portugal, do PC do B da Bahia. Ficou claro que há uma opção: pelo modelo neoliberal e todos os seus conceitos, em termos de Previdência. O que significa dizer desde o desmonte do serviço público e sua conseqüente privatização, à farsa da Previdência Privada, conduzida por bancos, sobretudo eles. Só o banco Itaú, fato relevado pela deputada baiana, deve mais de 400 milhões à Previdência. Vai cuidar, entre outros, da Previdência Privada. Vão entregar o ouro para os bandidos, tal e qual FHC fazia. Um dado que atemoriza são as denúncias de que o ministro José Dirceu tem ameaçado jornalistas que criticam o governo. Que Boris Casoy, brilhante como jornalista, mas agente do capital estrangeiro, seja criticado, tudo bem, mas ameaçado! Pior, o escritor Carlos Heitor Cony, uma das legendas de coragem e determinação na luta contra a ditadura militar, sem falar que um dos maiores escritores contemporâneos do Brasil. Isso, vindo de José Dirceu não espanta, é bem o seu feitio. É autoritário, prepotente e acha que o mundo começa e termina em seu umbigo. É uma espécie de Rsputin do governo. Um dos grandes equívocos do governo Lula – e vai pagar caro por isso – foi o de não ter trazido à público toda a sorte de desmandos e trapaças cometidos por FHC e sua quadrilha. Era fundamental que isso acontecesse, até para que os brasileiros tivessem conhecimento da real situação do País. Falar agora em rede nacional que salvou o Brasil, sem mostrar a corrupção generalizada dos últimos oito anos, soa como desculpa esfarrapada para sustentar uma política econômica inaceitável para um governo petista. Outro: não há, pelo menos até agora, nenhum debate público, como falado e decantado durante a campanha, sobre os grandes temas nacionais. Esse debate está limitado aos achegos de José Dirceu com o PMDB, com partidos como o PPB, agora PP, troca de cargos, favores, liberação de verbas, coisas típicas da corrupção de FHC. E, paralelamente, a ação dos oportunistas de sempre, o maior deles Tarso Genro, sempre na direção de servir a interesses pessoais, menores e mesquinhos de um político que é só projeto pessoal, nessa história de nova tendência dentro do PT. O governo Lula, sob pena de se transformar num engodo absoluto, deve aos brasileiros uma explicação clara sobre a proposta de Reforma da Previdência, como deve, essencialmente, trazer todos os dados a conhecimento público. Ao aceitar o projeto oriundo do governo de FHC, que, de fato, recebeu-o do FMI em inglês e limitou-se a traduzi-lo e envia-lo ao Congresso, Lula faz uma opção. Mesmo que as pesquisas indiquem que os brasileiros apóiam seu governo, a maioria, isso não indica muito, pois, por exemplo, Marta Suplicy, em São Paulo, é reprovada pela maioria dos habitantes da capital. São poucos meses para uma desilusão da grande maioria dos brasileiros. A fala do presidente em rede nacional de tevê foi pífia. Foi sobre o óbvio. Lamentável. Laerte Braga é
jornalista e analista político. [laerte.braga@uol.com.br]
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