"São dois pra lá, dois pra cá"
Laerte Braga, 25 de março de 2003

O governo Lula, neste momento, exceto no que diz respeito à política externa, está como cego em tiroteio: sem ter a menor idéia de para onde correr. Não conseguiu dançar certinho como na música de Aldir Blanc e João Bosco. Justiça seja feita, escapa o ministro Ciro Gomes, que tem mostrado saber o que quer, como quer e como fazer.

Não existe plano algum para a segurança pública e só declarações de combate ao crime organizado, mais indignação, não resolvem o problema. Lula foi eleito presidente da República a partir da crença que significava mudança. A maior parte do eleitorado brasileiro queria e quer se ver livre de toda a sorte de trapalhadas, atos de banditismo, etc, dos oito anos do governador geral FHC. Imaginava devolver à presidência da República, ao eleger Lula, o caráter de soberana e legítima representante dos interesses do Brasil e dos brasileiros.

Não há sequer um projeto estratégico de curto, médio e longo prazos para que o Brasil se reencontre consigo mesmo e seu povo. Até agora tem sido o “tio Lula”, dono da cachorrinha Michele, com direito a passear em carro oficial, enquanto o triunvirato José Dirceu, Palocci e José Genoíno monta um governo nos mesmos moldes fisiológicos do anterior: apoio por cargos.

Sem falar na política econômica, não mudou nada. E falando nas reformas, todas propostas nos moldes determinados pelo FMI e pelo Banco Mundial. Se continuar assim acaba agraciado com o título de charmain de bancos, grandes corporações, etc, etc, os que compraram o estado brasileiro nos anos de FHC.

De quebra Marta Suplicy, uma espécie de “Hebe Camargo” do PT, ou ”barbie”, como queiram, emplacando num belo cargo o marido argentino/brasileiro/franco e agora brasileiro outra vez. Pode ser encontrada em Paris, onde, normalmente, despacha o expediente da Prefeitura de São Paulo.

O governo Lula começou com um grande equívoco: a negociata, isso mesmo, de fim do período FHC que garantiu a aprovação da lei do foro privilegiado. O desespero de FHC era ter a prisão preventiva decretada pelo monte de falcatruas cometidas nos oito anos que gerenciou para os principais bancos o Estado brasileiro.

Mergulhou noutro equívoco, quando herr José Dirceu começou a fazer “negócios” com o PMDB, no escurinho do Congresso, na velha prática de clube de amigos e inimigos cordiais, votos por cargos, sem promover um grande debate nacional, como prometeu durante toda a campanha, sobre as grandes questões nacionais. A reforma da Previdência é uma delas.

Os passos estão confusos, o povo está sendo pisado nesta dança que mistura Michele com neoliberalismo e banqueiro norte-americano no Banco Central, não entendeu ainda que “são dois pra lá, dois pra cá” e, pelo jeito, não vai, ou não quer entender.

Herr José Dirceu não admite críticas. Quer os “radicais” fora do partido. Não se trata, por conta de sua ação, de nenhum bolero, mas de marcha militar, ordem unida, tudo pelo governo de São Paulo em 2006. O presidente (?), revelam os jornais, afirmou à boca pequena que seu provável adversário naquele ano, na reeleição, será o governador paulista Geraldo Alckimin. Nem bem começou e já muito errou, só pensa na reeleição. É praga tucana, com toda a certeza.

Essa conversa de que é preciso tempo, paciência, tem sido comum a todos os governos brasileiros, esconde a incapacidade ou a falta de vontade de mudar e permitir que o País reencontre um projeto Brasil, sobretudo agora, diante da ação terrorista/imperial da potência hegemônica no Iraque, no conhecido estilo grito de Tarzã, o rei das selvas.

A crítica, mais que procedente, tem o sentido de lembrar a Lula e ao grupo controlador do PT que não foi bem por isso que as eleições foram vencidas pelo partido e, principalmente, que a esquerda não tem marido para emplacar em cargos no Ministério, muito menos imagina despachar em Paris, logo, não é responsável pelo está aí, pelo que vem aí.

A não ser que haja mudança de rumos e retomada dos compromissos assumidos em praça pública.

Laerte Braga é jornalista e analista político. [laerte.braga@uol.com.br]


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