Lula optou por entregar a economia à direita do PT, os adereços à esquerda e ficar com o apito. Só quem decide se a falta foi dentro ou fora da área é ele. Pelo menos em tese. O que se observa para além disso é uma disputa surda entre José Dirceu, novo apóstolo do neoliberalismo, e aqueles a quem por conveniência chamam de "radicais".
A política econômica do ministro da Fazenda Antônio Palocci coloca em risco todo o processo de mudanças expresso em forma de desejo pelo povo brasileiro nas urnas, tanto quanto a badalada reforma da Previdência assume os contornos soturnos traçados pelo FMI e pelo Banco Mundial para o Brasil.
A idéia que isso é uma estratégia para que mais à frente seja possível tomar outro rumo, isso não existe. E se estiver sendo pensada assim, é equivocada. O preço a ser pago é muito alto e o capital político de Lula não vai conseguir romper a insatisfação gerada por altos índices de desemprego, por exemplo.
O ponto central do problema é que ao manter a política econômica do governo anterior, o que tem levado muita gente a chamar Palocci de Malocci, é que permanece a dependência do Brasil junto aos capitais especulativos. Predadores por natureza.
Se o que para muitos pode parecer absurdo, fechassem a Bolsa de Valores, optassem por construir um mercado interno, digamos assim, primeiro ninguém notaria a falta da Bolsa senão os especuladores e segundo, teríamos condições de sair da camisa de força imposta pela chamada "nova ordem", que como arauto um maluco como Bush, ou um cínico como Blair.
A história do Brasil como nação soberana não passa por cumprir os tais compromissos, que tanto falam. Soam a "são negócios", expressão consagrada pela Máfia. Enquanto abraçam, os mafiosos, ao mesmo tempo, enfiam a faca. Pelas costas.
Vai ser difícil conjugar avanços no MERCOSUL com a política econômica ditada pelo FMI. Ou as perspectivas apresentadas pelo ministro da Educação, quando o Banco Mundial executa, desde o primeiro mandato de FHC, um plano de liquidação da universidade pública no Brasil.
Bush não pergunta a ninguém se pode fazer a guerra. Os custos serão pagos pelos povos do resto do mundo e por maiores que venham a ser os sacrifícios enfrentados pelos norte-americanos, refiro-me ao povo, serão sempre menores, bem menores que os vividos pelos brasileiros. Ou pelos argentinos. Ou pelos chilenos. Ou pelos povos árabes. E assim por diante.
Uma leitura atenta da história recente da América do Sul mostra que a Argentina chegou ao fim do poço depois de uma reforma da Previdência semelhante à proposta por FHC e continuada por Lula.
Não existem compromissos dos Estados Unidos com o Brasil e com país algum. Só com seus interesses. O "x" da questão está aí. A globalização é uma falácia quando concebida como fator de paz, de desenvolvimento, de justiça social. É, como dizia Milton Santos, "globalitarização" imposta a partir de uma visão imperial.
Se os diagnósticos de governos como o de Lula não enxergarem isso, até porque o Brasil não é uma Guatemala onde colocam um general pela manhã, outro à tarde um terceiro à noite, vamos acabar virando uma Guatemala.
As reformas necessárias e fundamentais para que seja expresso em atos e conseqüências o governo popular, de mudanças, dizem respeito, por exemplo, à agrária. A retomada do desenvolvimento econômico implica em deixar de lado o modelo exportador anunciado pelo novo czar da economia e optar pelo caminho do fortalecimento do mercado interno, como causa geradora de empregos, de mais salários, de justiça social no sentido lato, enfim, o dilema de Lula, de seu governo, mesmo acontecendo há pouco mais de 40 dias, é entender que um segundo depois do cavalo passar selado, se não montou, não monta mais.
Torcer é o que nos resta. Pois o preço de um fracasso vai recair sobre toda a esquerda.
Laerte Braga é
jornalista e analista político. [laerte.braga@uol.com.br]
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