A reunião do presidente Luís Inácio Lula da Silva com os dirigentes regionais do PT teve um fim específico: apaziguar o partido e evitar que o racha que começava a ficar pronunciado e a ganhar conotações de irreversibilidade, ameaçando a própria base do governo. No seu espírito de gerenciar a crise, o presidente da República percebeu a reação negativa da opinião pública às anunciadas punições contra a senadora Heloísa Helena e outros dissidentes. A senadora é um nome nacional. Conquistou respeito e admiração ao enfrentar alguns caudilhos no seu Estado, Alagoas e, no Senado, Antônio Carlos Magalhães. José Dirceu é apenas um operador político, partícipe expressivo do clube de amigos e inimigos cordiais.
A reação do deputado federal Babá foi tudo menos manifestação de radicalismo político como querem alguns. Do contrário, jornalistas e economistas postados ao centro também teriam que ser assim rotulados: é quase unânime a crítica ao ministro Antônio Palocci, da Fazenda. Elogios só dos banqueiros.
Setores do PT, à direita, entendem que o partido pode ser pacificado com alguns ajustes, na prática, preenchimento dos cargos de terceiro e quarto escalões, contemplando tendências à esquerda. Apostam que a senadora Heloísa Helena, mais cedo ou mais tarde procura outra legenda, ou aceita ser enquadrada. A tendência a que pertence, a DS (Democracia Socialista) tem história de compor sempre com o lado vencedor e há indícios que buscam submeter Heloísa Helena. Se vão conseguir é outra conversa. São outros quinhentos.
No domingo surgiram as primeiras críticas de dirigentes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra) às políticas de Lula. Acham que o governo age com timidez tanto na questão econômica, quanto em relação à reforma agrária e a formulação de uma política agrícola. Os temores são fundados, pois tanto o ministro do Desenvolvimento Econômico, o empresário Furlan, como o da Agricultura, Rodrigues, são partidários do modelo exportador, da liberação dos transgênicos e têm compromissos nítidos, pelos retrospectos de suas vidas de empresários, com as principais corporações estrangeiras e interessadas nas pesquisas de transgênicos: Monsanto e Novartis. O MST tem denunciado, desde o governo de FHC, que a Monsanto caminha para deter o monopólio das sementes. Como está a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias) presta serviços só a Monsanto. São mais de 45 mil pesquisas de uma empresa pública brasileira, inicialmente voltada para os pequenos e médios agricultores, hoje, na prática, privatizada por um contrato de exclusividade.
Sem falar na ALCA. O governo Lula entrega no próximo dia 15 um documento sobre a ALCA, no duro mesmo ao governo dos Estados Unidos, dentro do prazo estabelecido pelos países negociadores do processo recolonizador, sem que um único debate público tenha sido feito. Ou seja: à moda de FHC. Isso fez com que ressurja a campanha contra a ALCA. O movimento popular, de um modo geral, teme que Lula esteja falando numa direção, para fora e noutra, para dentro. São coisas do grupo Dirceu/Palocci.
Há quem advirta, dentro do PT, para os riscos que Lula corre ao manter a política econômica de FHC. Está engasgada na garganta de boa parte dos petistas a continuidade da diretoria do Banco Central, dentre esses diretores, Teresa Grossi, que responde a processo na Justiça por prática de atos ilícitos. As denúncias foram feitas pelo então deputado Aloísio Mercadante, hoje senador e líder do governo na chamada Câmara Alta.
Os meios de comunicação no Brasil disputam a primazia de melhor elencar as várias forças do PT, as chamadas tendências. Muitos deles fazem classificações arbitrárias sobre linhas ideológicas de cada uma delas e isso enseja outra preocupação: comprometidos com o capitalismo, esses veículos manifestam apoio ao que chamam de "bom senso" do governo de Lula no que tange aos tais "compromissos".
Só não conseguem enquadrar jornalistas independentes, Élio Gaspari, ou Jânio de Freitas, ou Clóvis Rossi, dentre outros, nenhum deles passíveis de virem a ser chamados de radicais, pelo contrário. Todos bem centrados, sensatos e equilibrados. São críticos da política econômica e identificam ali riscos futuros que coincidem com o que denunciam boa parte dos rotulados como "radicais".
A reação do deputado Babá, numa crítica dura ao ministro da Fazenda, foi mais que uma frase agressiva. Foi um sinal que é preciso mudar a forma de tratar as bancadas na Câmara e no Senado. Deputados e senadores reclamam que ao contrário do que ficou combinado, nem José Dirceu e nem Palocci discutem previamente assuntos importantes com os parlamentares. Mandam pacotes prontos e querem obediência cega.
A idéia de expulsar os "radicais" não prosperou. Assustou muitos dos dirigentes do chamado campo majoritário. A curto prazo deixa o governo numa entaladela e cria dificuldades impensáveis agora. Foi só um gesto autoritário de José Dirceu, logo abortado pelo bom senso de outros. O ministro chefe da Casa Civil continua fazendo questão de aparecer como ministro dentre os ministros e trabalha ativamente para que os jornalistas o apresentem assim. E o fazem, boa parte. Uns até, afinados com os "donos", interpretando os senhores, sabendo que é preferível fechar com um Sarney da vida, ou um Temer, que cobram 20, fecham por 10 e não criam tantos problemas como um pefelista, ou um tucano, que cobram mais caro.
São espantosas as revelações sobre a corrupção no governo FHC e isso vai ser outra briga. Os "radicais" querem por para fora. Dirceu não.
Fonte: La
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