| Ensaio sobre o MEDO
Algumas considerações sobre a declaração da atriz exclusiva da Rede Globo, Regina Duarte Renato Kress Não foi tão surpreendente toda a repercussão dada ao pronunciamento da atriz exclusiva da Rede Globo, Regina Duarte, assim como não surpreende ver que, a cada dois comerciais na Rede Globo, há uma campanha publicitária contra o candidato do Partido dos Trabalhadores, Luís Inácio Lula da Silva. Quanto a este último fato vou perder pouco do seu tempo, leitor. Já que o título mostra bem que não vim a isso. Imagine que as tão poderosas organizações Globo são uma concessão governamental e que os impostos que ela deveria pagar nunca foram vistos pela receita federal. Dessa maneira fica fácil compreender como a campanha de José Serra consegue ter tanto tempo nas telas da Rede Globo de televisão. Se compreendermos que no mundo televisivo tempo significa rios de dinheiro, podemos considerar o assunto encerrado. Perdoem o que parecia ser uma fuga do assunto. Vamos compreender a estrutura do que aflige a exclusiva atriz da Rede Globo e que, naturalmente, pode afligir a milhões de brasileiros, o medo. É maravilhoso que o povo brasileiro esteja se mobilizando frente a essas eleições. Que sintam medo, que sintam raiva, que se sintam engajados, insultados, vilipendiados, enganados e manipulados. É ótimo que o povo brasileiro tome consciência do que está à sua frente. A consciência sobre o estado atual é o primeiro passo para o diagnóstico que nos levará a alguma forma de mudança estável. E parece que todos os candidatos ao maior cargo do poder executivo perceberam esse anseio, essa insatisfação, essa necessidade imprescindível de novas perspectivas. Ao que parece nem o candidato do Governo, o Ministro José Serra, está satisfeito com os oito anos de administração do seu padrinho. Até para continuar a desenfreada doação do patrimônio nacional brasileiro, perpetrada pelo Sr. Presidente Fernando Henrique Cardoso e toda a sua gangue, como Armínio Fraga que trabalhou para o megaespeculador George Soros e atualmente dirige o Banco Central do Brasil ou Pedro Mallan que já trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI) e atualmente ocupa a cadeira de Ministro da Economia, o governo federal está tendo que fazer milhares de malabarismos para esconder, manipular números e estatísticas dadas como falsas pelos próprios órgãos do governo, como o IBGE ou o DIEESE. Infelizmente a cultura eleitoral brasileira está ancorada na perspectiva de que "a grande festa da democracia" se dá nas urnas e seus confetes e serpentinas acabam por lá. Não é bem assim. O estado de conflito em que se encontra a mente do brasileiro está se manifestando nas pesquisas eleitorais, mesmo as pesquisas tendenciosas estão tendo que admitir a subida do candidato que apresenta maior verossimilhança à questão da mudança. O povo brasileiro está confuso sim, mas decidido a ir a qualquer direção que não seja o abismo. As estatísticas compradas nos jornais, os comerciais grátis e os números fantasiosos do governo Fernando Henrique não conseguem mudar o aspecto degradante do cotidiano. O brasileiro já não vive numa incerteza diária, ele vive na certeza absoluta de que se ainda possui um emprego é por mera questão de sorte, que a cada dia vê mais pessoas arrastadas para a economia informal, mais famílias nas ruas, mais pedintes nos sinais. Não são números, são fatos. Esses fatos incutem na mente do brasileiro a necessidade imediata do diferente, do diverso, do antídoto (coisa que previne ou corrige vício, defeito, etc. – Dicionário Michaelis da língua portuguesa) para esse verdadeiro vício de nos entregarmos às mãos da direita falaciosa dessa nação. Sei que "nação" é uma palavra fora de moda, mas eu ainda gosto dela. O povo brasileiro agora, aquele que é vítima desse estado que os sociólogos chamam de anomia (ausência de normas, regras ou valores) dentro de sua sociedade política, ainda não descobriu o que quer. Ele apenas está plenamente confiante sobre o que não quer mais, sobre quais estruturas desgastadas da política nacional ele pretende se desvencilhar. Parece simples saber o que se quer, não? Freud diz que grande parte de nossa motivação é inconsciente. É freqüente que se aja (ou melhor, se reaja) sem consciência do que nos motiva. Toda cultura conspira para convencer seus membros a adequar seus desejos ao que é considerado "certo" e "bom". Os bons capitalistas competem e consomem. Os bons comunistas não (teoricamente). A indústria da publicidade baseia-se em premissas muito simples: os seres humanos desejam muitas coisas, mas não sabem o que os satisfaz. Logo: podem ser convencidos de que necessitam dos produtos x, y, z etc. Assim como podem ser convencidos de que o candidato x ou y vai resolver todos os problemas e que, transferindo sua liberdade política (ao método Locke) para ele, a responsabilidade sobre o andamento das decisões políticas no município, bairro, estado ou país sai de seus ombros e se integra na simbologia de uma faixa presidencial. Essa couraça pertence ao povo brasileiro ou a quem quer que represente a sua vontade, como no parágrafo único do primeiro artigo da Constituição da República Federativa do Brasil: "Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido diretamente ou por meio de representantes eleitos diretamente (...)" (sic). Na sociedade de consumo estamos sempre comprando a satisfação fugidia de um sonho obscuro. É por isso que insisto que o medo vem do que não se conhece, a ausência de informação e o excesso de tentativas de formação de ideologias nos leva a temer o novo, a arraigarmos nosso ethos (cola social, o que mantém uma sociedade unida) a uma estrutura política decadente. Perguntar-se "o que eu quero de fato?", não é apenas arriscado, é revolucionário. É livre. E a liberdade tem um preço, assim como descobrem os adolescentes quando resolvem morar sozinhos, procurar um emprego, definirem carreiras. É perfeitamente compreensível que essas memórias ásperas possam ser petrificadas dentro de uma personalidade frágil, mas faça um esforço Sra. Regina, algum dia na vida a Sra. deve ter se sentido potente, capaz, auto-suficiente, livre. Não para votar no candidato que representa a vontade da maioria da população brasileira, não. Apenas para questionar se todos os brasileiros receberão os mesmos cachês que a Sra. deve ter recebido caso o candidato da coligação dos partidos mais acusados de corrupção no Brasil ganhe essa eleição. Para descobrir o que se deseja, é necessário deixar livres suas fantasias e sonhos, adubar a imaginação. Muitos desejos são fugazes, tal bolhas de sabão têm a consistência de segundos. Só os desejos mais profundos estão conectados às fantasias que persistem. Se, diariamente, há oito anos, oito milhões de brasileiros desejam ter um emprego, corresponder ao que tão sabiamente Gonzaguinha colocou na sua obra "Guerreiro Menino": 'e sem o seu trabalho, o homem não tem honra, e sem a sua honra, se morre, se mata', nesse momento esse cidadão brasileiro toca uma profunda intencionalidade do seu ser. Compreendo que seja mais arriscado entrar em contato com o que se quer realmente do que brincar com vontades passageiras. É perfeitamente compreensível que se prefira não correr o risco de permitir que nossos verdadeiros desejos aflorem, afinal, tememos conflitos e a tristeza provocados pela consciência dos anos que desperdiçamos nos conformando e nos regulando pelas exigências alheias. Há quanto tempo não relativizamos a probidade de nossos deveres e de nossos valores? Carregamos um fardo de deveres infantis e valores de segunda mão que nos sobrecarrega de culpa e vergonha. Já não seria tempo de reavaliarmos a importância de substituir esses valores por valores mais maduros? De nos livrarmos do que Freud chama de neuroses? Todos temos nossas neuroses, mas não precisamos nos limitar a elas, não é mesmo? O mais inútil dos riscos é abandonar o senso do que é certo para perseguir o que é meramente conveniente. Uma maneira de deixar mais objetivos seus valores é imaginar que alguém se dedicou a escrever sua biografia. Se o capítulo final fosse dedicado às contribuições que você fez aos que vivem à sua volta, o que seria escrito nesse capítulo? O que lhe agradaria ver escrito? Brinque com as alternativas futuras, imagine uma chamada do telejornal dizendo "o presidente da República..." e complete com os dois nomes que pleiteiam o cargo. Faça um recorte mental ou real dos olhos dos candidatos, observe o que eles lhe transmitem. Perceba que tipos de atitudes como governantes combinam com o que você deseja, com o que o povo brasileiro anseia, com a história de cada candidato, com aqueles olhos. Você perceberá que, quanto mais concretamente visualizar, imaginar ou tocar um desejo futuro, mais e melhor poderá determinar o que quer e o que não quer. Faça um cálculo dos riscos. Correr um risco de maneira madura implica calcular as prováveis conseqüências de suas ações, no caso da ação política, implica calcular as prováveis conseqüências de se eleger um membro de um grupo a mando do capital especulativo internacional, organizado para depenar toda a estrutura que vinha embasando a soberania nacional. Convém perceber que todas as políticas econômicas do governo Fernando Henrique Cardoso tiveram como conseqüência direta o maior distanciamento entre as classes, criando o maior vão entre a parcela mais pobre e a parcela mais rica da população em todo o mundo. É isso que significa ser campeão da desigualdade social, graças à equipe que sustenta a candidatura José Serra somos hoje o melhores do mundo. Resta saber no quê. Será que queremos apenas sermos os melhores? Não mais importando se é em fraudes, sonegação de impostos, corrupção, desigualdade, analfabetismo? Para que consigamos manter os empréstimos do Fundo Monetário Internacional é necessário que as crianças passem de ano e terminem a escola, teoricamente maravilhoso, só que para tal, a ordem do governo Fernando Henrique Cardoso é que nenhuma criança repita de ano. Resultado: existem mães entrando com pedidos nas escolas e com ações judiciais para que o filho repita, por exemplo, a quinta série, pois ele ocupa uma vaga nesse período da vida escolar, mas não sabe ler nem subtrair. É compreensível que haja toda essa insegurança em relação a essa mudança de que tanto se necessita, afinal, eu não creio que a Sra. Regina Duarte tenha filhos, netos, sobrinhos ou parentes de qualquer grau em escolas públicas. Creio que ela compreenda o que significa, hoje em dia, freqüentar uma instituição dessas, lidar com professores mal-pagos, sem aumento há sete anos, sem material didático, sem perspectivas. Deve ser mais fácil mesmo tentar tapar o buraco da ausência do poder público com campanhas paliativas como o "Amigos da Escola", e forçar para que se retire da consciência nacional a idéia de que é o governo federal quem deve se responsabilizar diretamente por esse papel. Afinal, as privatizações foram feitas com o intuito de "enxugar" a máquina do Estado, dando mais prioridade ao ensino e à saúde não é mesmo? Pelo menos foi a desculpa oficial. Será que é o que se tem visto em quase uma década de governo do PSDB? Avalie seus medos. Se uma avaliação realista, ou seja, galgada em fatos e não em falácias publicitárias ou comerciais doados à campanha Serra, provar que o medo é irracional e o risco é pequeno, continue andando, sem pressa, em direção a ele. Em geral o medo não passa de um farol numa praia distante de seu eu desconhecido. Don Juan, de Moliere, diz: "O medo é o primeiro inimigo do homem de conhecimento". Ande na direção de seu medo e cresça com ele. Você verá que, na maioria das vezes, a sensação que você identifica como medo é apenas excitação reprimida. Pratique com uma rede. Nenhum trapezista aprende a dar um salto triplo sem uma rede. Quando estiver aprendendo a fazer grandes mudanças na vida, é melhor que amadureça aos poucos para que tenha tempo de ouvir tudo o que quer saber. Participe de uma reunião dos partidos que encabeçam as coligações, verifiquem o que é discutido, se propostas de governo, se o orçamento participativo, se as contas públicas são verificadas em aberto, com imparcialidade e transparência, ou se se procura obscurecer o próprio passado a fim de jogar luzes sobre especulações infundadas sobre a questão pessoal do outro candidato. Que tal verificar com que seriedade são tratadas as questões nacionais em detrimento do grau de necessidade de se tratarem das questões pessoais? Enfim, até porque o texto pode estar ficando cansativo, decida (do latim decidere, "interromper"). Até aqui vínhamos praticando um ludens (do lúdico, jogar) com os fatos e algumas metáforas. Agora é sério, a maquininha está na sua frente, é o dia de enfrentar esse tigre, que no tarô simboliza os medos paralisantes. Toda decisão é um comprometimento com algo e, conseqüentemente, uma separação com outro universo, com outras possibilidades. É por essa característica de só podermos tentar consertar esse erro daqui a quatro anos que esse momento se tornou tão importante. Resta-nos saber se haverá como consertar esse erro. Arrisque algo definitivo, arrisque algo significativo. Se você só tem aquilo que vê, tente mudar os olhos. |