| A Racionalidade de George
Renato Kress, 27 de março de 2003 Depois do choque humanista com o atual estado das coisas resolvi escrever como de costume. As coisas vão voltando ao seu lugar, à exceção de membros de crianças iraquianas, e eu vou voltando aos meus textos. Em primeiro lugar quero deixar bem claro que em hipótese alguma é plausível crer num niilismo norte-americano. Parece um tanto quanto óbvio insistir no ponto, mas infelizmente boa parte da opinião pública - insisto em pública e não na opinião de nossos colegas ou qualquer membro da classe média levemente mais informada – tende a crer que Bush não passa de um lunático. Talvez se realmente deixássemos tudo a cargo de George W. Bush poderíamos entrever essa possibilidade, mas está claro que sua idiotia é mais uma forma de manipular a compreensão dos fatos, por mais claros que sejam. É muito comum que se coloque num patamar de irracionalidade o que não corresponde aos nossos parâmetros ocidentais, às nossas tradições liberais, republicanas e filosóficas de racionalidade. A questão é a imposição (bélico-ideológica) de uma nova racionalidade, de uma nova compreensão de mundo onde alguns esboços já se delineiam nas estruturas políticas mundiais, a saber: o papel da ONU como uma espécie de fórum mundial destinado apenas à ajuda humanitária, sem qualquer poder de veto a ações bélicas perpetradas pelos Estados Unidos (ainda não está claro se haverá a possibilidade de veto às campanhas bélicas patrocinadas por outros governos, como o de Israel, ou se essa autoridade será relegada também aos Estados Unidos); o papel auto-imposto dos Estados Unidos como “Força-Tarefa” do mundo, encarregada não só de “manter a paz” – obviamente sob seus termos – mas principalmente o de desenvolver os novos conceitos de “Guerra”, “Paz”, “Liberdade”, “Igualdade”, “Democracia”, “Autoridade”, “Legitimidade” e outros tantos sob os quais o mundo irá se pautar. Em suma, a partir desse novo paradigma imposto pela aparente “irracionalidade” e “improbidade” dessa Guerra em que apenas um país é atacado, corre-se o risco de jogar pela lixeira todo o desenvolvimento do pensamento político ocidental, às célebres exceções de Maquiavel e Hobbes, que serviriam como o primeiro degrau para a compreensão desses novos conceitos arquitetados pelas empresas norte-americanas que utilizam o fantoche Bush. Tomahawks e Thomas
Hobbes
A ligação entre esse filósofo defensor da monarquia absolutista e o quadro pincelado pelos Tomahawks de Bush é que, a partir do aniquilamento da autoridade da ONU, pode-se considerar, com ressalvas, que estamos entregues a uma espécie de “estado de natureza” hobbesiano, em que a incerteza sobre o amanhã nos encaminha para agir dentro da racionalidade imposta pelo próprio Bush, visto como o Leviatã. (Ou como o Pasquim maravilhosamente colocou: “A Besta do Apocalipse”) Não o apocalipse como o fim físico do mundo, mas como o fim do mundo político tal qual o conhecemos. Essa dialética maniqueísta do “Medo versus Esperança” utilizada de forma pobre nas eleições brasileiras de 2002 é proveniente de Hobbes e agora ataca com força total implicando na limitação de possibilidades de resposta, de solução aos impasses colocados pelo governo norte-americano. Possibilidades
estranhas...
E.U.A.: De
umbigo a embargo
Concordo que, à primeira vista, seria ingênuo de minha parte crer nesse altruísmo, nesse desprendimento por parte desses Estados. A questão é que o que pode ser visto como altruísmo romantizado também pode servir perfeitamente como uma sucessão de xeque-mates nos jogos de poder que se travam diariamente dentro do campo político-diplomático, principalmente após a investida norte-americana contra o Iraque. Por exemplo: desde que se pronunciou firmemente contra a guerra dos Estados Unidos, Jacques Chirac não pára de subir em popularidade dentro da França, o que dá respaldo e, em certo ponto, legitimidade para que ele governe de maneira mais livre. O mesmo se dá, em menor escala, com Gehard Schroeder. É útil a essas grandes potências acima citadas ocuparem-se de uma política desse tipo, em especial porque também estão ameaçadas pelos desmandos norte-americanos. E, a essa altura, seria difícil para qualquer uma delas pôr-se, sozinha contra o búfalo desenfreado de Bush. Quanto à
sociedade civil mundial? A melhor política, porque dói mais,
é a do boicote aos produtos norte-americanos, não só
aos derivados do petróleo, mas a todo e qualquer produto industrializado
norte-americano. Precisamos mostrar que aprendemos com as políticas
norte-americanas. Utilizar suas estratégias contra eles. Para ao
final da(s) guerra(s) podermos dizer: “Ótimo, vocês têm
o petróleo. E o embargo do mundo”.
Renato Kress [renatokress@consciencia.net]
é co-autor do jornal Consciência.Net
|