| No
mundo há muitas armadilhas
No mundo há muitas
armadilhas
Tua janela por exemplo
No mundo há muitas
armadilhas
Contudo, olhas o teu filho,
o bichinho
A vida é pouca
Estás preso à
vida como numa jaula.
O certo é que nesta
jaula há os que têm
A estrela mente
Ferrera Gullar, In Dentro da Noite Veloz. |
Por que certos personagens da literatura universal, como Dorian
Gray, Drácula, Connor Mc'Loud (o "Highlander") ou os "elfos" do
Senhor dos Anéis nos inspiram tanto carisma? Por que é tão
fácil sofrer esse processo de fascínio pelo outro, esse outro
que nos é apresentado de forma mágica, lírica e transcendente?
A imortalidade, característica de todos os personagens acima citados,
sempre foi uma das grandes metas da humanidade. Seja em seu espírito
coletivo, quando imperadores, césares ou "Führer's" insistiam
em crer que seus impérios, que sua cultura ou sua arte, durariam
para sempre, seja na visão individual da imortalidade como conquista
final do seu processo de individuação; imortalizar-se por
grandes feitos, descobertas, atitudes, visões, teorias etc; para
a imortalidade coletiva é lícito dissolver a individualidade
ao que for declarado como "interesse do grupo", e por outro lado a exacerbação
da individualidade que permita desfrutar da condição individual
de "imortal" só pode ocorrer se os outros, se a "massa" permanecer
sem a condição de fazê-lo - do contrário também
perderia seu significado.
Em um conto de Jorge Luis Borges entitulado "O Imortal", Joseph Cartaphilus chega à cidade dos imortais onde perambula por um palácio labiríntico de corredores que levam a paredes, portas mínimas onde nenhum ser humano poderia passar, escadarias de cabeça para baixo etc., e percebe que a condição de imortalidade, alcançada por tal povo, retirou todo o significado das invenções e descobertas humanas, tornando-as inúteis. Os imortais do conto tornaram-se "homens barbudos e macilentos, de pele acinzentada e nus" e o próprio Joseph não se espantou que dormissem em covas de lama e que alimentassem-se de cobras. Dentro da natureza o homem é o único animal dotado da mortalidade. À medida em que se pode crer que os animais e plantas ignoram a idéia de "morte", com todas as diversificadas concepções culturais impingidas ao conceito pela humanidade através dos tempos, não vejo porquê não dotarmos a eles dessa "imortalidade" conceitual. Tal como o homem é o único ser a constituir cultura, também é o único a estabelecer um significado para a ausência permanente do ser, para a morte. Portanto, dentre os mortais, tal como expressa Jorge Luis Borges em seu conto "(tudo) tem o valor do irrecuperável e do perigoso". Já entre os imortais "todo ato é o eco de outros que o precederam no passado, sem nenhum início visível (...) Nada pode acontecer apenas uma vez, nada é preciosamente precário". "Se a mortalidade da alma pode ser terrível, não menos terrível pode ser a sua imortalidade" - Unamuno (1864-1904), O Sentimento Trágico da Vida, VI. A consciência da mortalidade faz com que todo o ato humano seja dotado de um sentido tão precioso quanto único. Os atos se tornam preciosos pela preciosidade dos momentos. Eis que projetamo-nos desde o século XX ao início do XXI para finalmente vencermos a morte. Supúnhamos que a detêssemos. Qual sentido haveria em todas as coisas (em todos os atos, que se formam em "projetos de vida") que laboriosamente juntamos a fim de injetar um propósito em nossa vida absurdamente breve? "As vidas de todos os grandes homens lembram-nos: podemos tornar sublimes nossas vidas. E, ao partirmos, deixar atrás de nós pegadas nas areias do tempo" - Longfellow (1807-1882), Um Salmo de Vida. Ao contrário da condição da imortalidade, a mortalidade implica na possibilidade da imortalidade. Fôssemos todos imortais e talvez só conhecêssemos a morte pelos animais, ou dotaríamos a condição de "mortalidade" aos nossos "irmãos inferiores" na escala evolutiva deixando aos poetas (se é que não poderíamos sê-lo todos em alguma parcela das nossas infinitas vidas, poetas, filósofos, pedreiros, mergulhadores, cozinheiros, pescadores) a possibilidade de "devanear" sobre a realidade distante da morte. "Pegadas nas areias do tempo... Bobagem! Amanhã vai chover..." - Elia Kazan (1909), O Subestúdio |
| A realidade inevitável
da morte torna tanto a imortalidade uma proposta atraente, quanto ativa
no ser humano a força que o impele à eternidade, preenchendo
de conteúdo os significantes espalhados pela realidade. A imortalidade,
dentro da perspectiva de eternizar-se na história, torna-se um empreendimento
- condição antinatural, que não surgirá a não
ser que seja forçada a isso.
"A vida é pobre demais para não ser também imortal." - Jorge Luis Borges (1899), História da Eternidade. A imortalidade é combustível para o desenvolvimento das metas do espírito humano. O que acontecerá quando esse espírito for substituído completamente pelo combustível? Como Einstein nos disse: E = mc2 (energia é igual à massa vezes a energia cinética - energia produzida pelo movimento - ao quadrado). O que aconteceria se substituíssemos nossa massa, nossa essência, por puro combustível, por pura energia, movimento? Não é o que ocorre com o homem cotidiano? Essa ausência de profundidade, de essência, transpassada pela perspectiva de uma vida longa proporcionada pela medicina - que nos facilita o mergulho na areia movediça dos atos cotidianos, sem importância, mecânicos, imediatos, automáticos, já que teremos sempre "o futuro", exógeno e impalpável, como a "vida eterna" dos grandes templos religiosos, para as atividades que nos dêem prazer e significância. A resposta da questão talvez esteja em Einstein mesmo. Se, numa multiplicação, substituirmos qualquer incógnita - por exemplo a massa, a essência do ser humano - por zero, o resultado, será invariavelmente, o nada. |
Renato
Kress
2003-02-18
Consciência.Net