Mancha, marca, chaga, estigma
Renato Kress

  Toda sociedade cria seus estrangeiros, sua delineação do ideal de "pureza". Como explicita Zygmunt Bauman, um omelete num prato é um alimento saboroso; o mesmo omelete sobre um travesseiro é um elemento impuro, sujeira, e deve ser limpo, retirado, expurgado da orgânica organização social contemporânea (ou pós-moderna).

  Todos os elementos da sociedade pós-moderna teriam o seu contexto, tal qual peças de Lego, separadas por idades, coleções e formas de encaixe. Será mesmo? Esses "estranhos" são pessoas que não se encaixam no mapa cognitivo, moral ou estético do mundo e que, por sua simples presença, deixam turvo o que deve ser transparente, confuso o que deve ser uma coerente receita para a ação e impedem a satisfação de ser totalmente satisfatória. Isso porque poluem a alegria com a angústia, ao tempo em que tornam atraente o fruto proibido. São manchas na sociedade, obscurecem e borram as linhas de fronteira que devem ser claramente vistas, geram a incerteza que dá origem ao mal-estar de se sentir perdido dentro dos códigos culturais e costumeiros de uma sociedade.

  Existem certas pessoas que não contribuem exatamente para a estrutura ordeira e significativa do mundo pós-moderno. Esses estranhos pós-modernos não se adequam à límpida e cristalina visão da ordem. Simplesmente por estar nas proximidades esses indivíduos se intrometem no trabalho que o estado jurou realizar e estraçalham com tudo. Talvez sejam um sub-produto esquálido do processo individualista mal direcionado, filho bastardo da individuação de Jung.

  É óbvio que o todo poderoso status quo das sociedades globalizadas, flexibilizadas, domesticadas e tecnocráticas não poderia deixar que esses ícones do processo de estranhamento social passassem incólumes. Desenvolveram duas estratégias para "normatizar" essas anomalias sociais. A antropofágica, que consiste em aniquilar o estranho, o diverso, o alter (outro), devorando-o e depois digerindo, evacuando as especificidades, as diversidades, e aproveitando para o orgânico meio social só a massa idiotizada, indistinguível do resto do Leviatã pós-moderno. Ou a estratégia antropoêmica, ou seja, vomitar os estranhos, banir dos limites do mundo ordeiro e impedir toda comunicação com os internos. A tão conhecida exclusão, uma idéia de "purificação", expulsar o diverso para além das fronteiras do administrável. Quando nenhuma dessas medidas for possível recorre-se à aniquilação física do estranho. À la Sharon, Bush, Hitler, Mussolini, Berlusconi...

  Alguns virão dizer que o projeto liberal se baseia na diferença entre os indivíduos, e estarão certos. São diferentes por causa das tradições locais e particularísticas em que eles crescem e amadurecem. Criaturinhas da cultura, produtinhos em série da educação, flexíveis e dóceis de serem reformuladas. Desde que, é claro, dentro dos moldes previstos, pré-determinados e com uma curva de alternativas rigidamente traçada. Se qualquer um duvida, experimente. Hugo Chávez por exemplo percebeu a amplitude da "liberdade" pós-moderna. Ele é livre para deter uma considerável quantidade de barris de petróleo, e o Führer Bush e seus Haptmanns (Capitães) também são livres para financiar a mídia venezuelana com vias e usurpar esse mesmo petróleo. Talvez o bom da "liberdade" contemporânea seja seu caráter "dialético" expresso principalemente pelo fantasma do pensamento único.

  É possível entrever na ascenção do nosso Excelentíssimo Inácio e de Lúcio Gutierrez no Equador, na luta pela manutenção democrática de Chávez no poder, no reconhecimento não só do poder executivo alemão e francês como também de seus povos ao fortalecimento do Estado-Nação brasileiro com sua proposta eleitoral de  consolidação de um "novo pacto social", uma possibilidade árdua, lenta e, contudo, fecunda, de reversão frente ao avanço da ditadura do pensamento único, da intolerância elevada a "indispensável qualidade dos 'verdadeiros' liberais nacionalistas pós-modernos" e da arbitrariedade da minoria próspera. Isso, é claro, se estivermos pensando alegremente como smurfs ou lemings sul-americanos. A África, grande parte da América Central e da Ásia estão longe de ter essa mesma proporção na conscientização política, ao menos manifesta em voto.

  Qualquer que seja o primeiro passo, ele deve ter como meta reverter a crença, imposta pelos grandes detentores de capital e pelos partidários do neoliberalismo (os neomalandros, ao contrário dos "neobobos" de FHC), de que a parcela mais pobre da população não deve ser reinserida no mercado de trabalho por programas intensivos e extensivos de ensino público e da recuperação da consciência democrática e cidadã, mas marginalizada e tratada como criminosa por não ter condições de satisfazer às expectativas das grandes empresas mundiais e da lógica do mercado.

  As expectativas e perspectivas bem que poderiam ser massificadas, não só as informações e as ideologias alienígenas. Mas enfim, quem somos nós para resistir aos apelos publicitários sorridentes, engraçadinhos, pomposos, moralistas, malhados e siliconados? Quem, na nossa sociedade de indivíduos atomizados e solitários, pode resistir à venda da passagem para a inserção nessa irrealidade contemporânea?

  Talvez seja justamente nesse ponto que o conhecimento do outro, do diferente, do diverso, tenha sentido. Na provável capacidade do outro em nos presentear com novas concepções de um homem integral menos comerciais ou parciais do que o Feng-Shui, a Astrologia e certas teorias psicológicas, místicas ou mesmo na transformação da vida num esquema ou num negócio em que o homem-engrenagem tem de 'otimizar' suas relações pessoais, 'maximizar' a eficiência do seu tempo livre em casa, 'investir' num relacionamento, calcular o 'custo-benefício' de uma ida à praia, analisar a 'volatilidade' dos seus encontros com determinado parente ou o 'know-how' dos serviços do mecânico.

   Pensando em Sharon e Hitler: quem sabe a 'pureza' não seja uma praga? Quem sabe a única idiotice seja qualquer tentativa de padronização ruminante?

Renato Kress | 14-12-2002


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Bibliografia
: Bauman, Zygmunt. O Mal-Estar da Pós-Modernidade. JZE.

                     Bourdieu, Pierre. Contrafogos 1. JZE.
                     Samuel Pinheiro Guimarães. Quinhentos Anos de Periferia. Ed. UFRGS
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