O consumismo como doença
Gustavo Barreto

Não vejo o consumismo observado nos dias de hoje de outra forma senão como uma moléstia. E das grandes. Poderia ser um problema como qualquer outro – tal qual o problema das drogas – mas temo que ele seja pior, pois não é tratado, de forma alguma, como doença. Pelo contrário: consumismo, nos dias de hoje, indica potência, virilidade, dignidade etc. A droga, por outro lado, já é tida como um vício, algo que poderá destruir a família. Como se o consumismo já não fizesse isso. Uma família que ganha na loteria, por exemplo, não raro fica com a mesma quantidade de dinheiro que possuía antes – ou até menos – por perder o controle da situação, gastando sem critério algum. Famílias passam fome para ter uma televisão. Em Fortaleza, Ceará, é sabido que muitas pessoas moram em locais mais baratos para poder ter um carro importado. Os exemplos de desestruturação familiar são incontáveis.

Para ilustrar bem o que quero dizer e mostrar didaticamente como se dá esta terrível doença, pego o exemplo mais próximo no momento: eu mesmo. Luto diariamente contra o meu consumismo. Darei, portanto, alguns exemplos patéticos (porém compreensíveis) de como esta força superior ao nosso consciente nos domina.

Gostaria, antes de começar, de desfazer esta idéia inadmissível do “indivíduo” (que não é dividido), pois somos claramente um mar de contradições internas, coisa que a psicanálise e a própria experiência de vida demonstra facilmente, com nossos eternos dilemas diários. É a partir dessa divisão que pretendo demonstrar os diferentes pensamentos que viveram (e vivem, alguns) dentro de mim. Eles brigam diariamente e travam uma batalha por certo desgastante. O modo como se controla (ou não) estas forças é que vai determinar o sucesso pessoal em termos de valores ditos éticos.

Por consumismo, não pretendo entender apenas o ato de comprar algo, obviamente. Se vou à padaria e compro um pão, logo estou consumindo. O que chamo de consumismo, em verdade, é uma compra excedente, desnecessária. Em outras palavras, seria o “ter” pelo simples fato de “ter”. Quando compro algo que trará benefícios à minha pessoa, algo que possa internalizar e tirar proveito, então a compra foi boa. Quando compro algo pelo simples fato de que a compra em si – e nada mais – vai me fazer bem, então creio que estou sendo consumista.

Para não demorar muito nas exceções, que são raras, há também as compras cujo produto da venda reverte-se para projetos de cunho social e coletivo. Contudo, uma rápida pesquisa comparando o lucro diário das classes mais privilegiadas e o quanto é revertido deste para a parcela excluída do sistema capitalista de consumo nos mostra um quadro pouco satisfatório.

Alguns argumentariam: mas se a compra – em si, que seja – fez bem à pessoa, então isso adicionou algo. Foi um benefício. No entanto, é aí que reside o ponto principal da discussão. Para exemplificar melhor o meu contra-argumento, volto à analogia das drogas. Argumentar que o consumismo em si é algo benéfico a qualquer pessoa seria – neste caso em que o consumismo é posto, por mim, como um impulso não-saudável – o mesmo que argumentar que a cocaína é benéfica. Esta droga, como se sabe, produz um efeito prazeroso no usuário, caso contrário não teríamos tantos usuários. Por conta disto, seria a cocaína benéfica.

Em relação à dependência (química ou mental, tanto faz), o mesmo se verifica no consumismo. Comprar torna-se um impulso, quase impossível de ser detido. Creio que seria até fácil detê-lo, mas nunca nas condições na qual vivemos. O consumismo, repito, é bem visto – muitas vezes um aliado contra a crise econômica de um país. Cito, por exemplo, o recente incentivo do governo norte-americano na tentativa de driblar a recessão.

Além de bem visto, ele vem muitas vezes disfarçado. Uma pessoa dita “boa”, “com um grande coração” etc. é aquela que, no Natal (por exemplo), compra muitos presentes para todos os amigos e para a família. O consumismo, muitas vezes, aparece na forma de conceitos já universalizados como bons, tais como amizade, amor etc. No entanto, a verdadeira amizade (ou amor, ou qualquer um dos conceitos “bons”) é demonstrada com atos de grandeza interior – claramente não é avaliada pelo limite do cartão de crédito. Em outras palavras: comprando ou não comprando muitos presentes (ou pagando por serviços, como um restaurante fino), não é neste quesito que se verifica o sentimento mais sincero.

Voltando rapidamente ao “ter pelo ter”, cito uma luta que travo ainda hoje, luta comum e que pode ser facilmente confundida com uma “busca por uma evolução interior”. Falo do impulso de comprar livros. Argumenta-se quase sempre que pessoas cultas gostam de comprar muitos livros. Ignora-se, no entanto, que muitas gostam de comprar livros e ponto final. É, novamente, o “ter pelo ter”. Não se pensa, absolutamente, em ler o livro que está sendo comprado. Mesmo que isso venha a ocorrer futuramente, a primeira necessidade básica que precisa ser saciada é de posse. Depois, se convier, pensa-se na necessidade intelectual.

O caso do JB é um caso pessoal que gostaria de descrever, a fim de complementar o argumento anterior. Gosto, honestamente, de ler jornal. A leitura de um jornal quase que diariamente é mais do que uma vontade – é uma necessidade. Isso faz com que eu, por vezes, compre mais de um jornal por dia. Devido à grande quantidade de coisas que são de minha obrigação e vontade (um pouco dos dois) fazer – editar este jornal, ir à universidade e ler os textos sugeridos, dar atenção aos amigos etc. –, a leitura diária se torna praticamente impossível.

Até aí, julgo que ocorrem problemas comuns do dia-a-dia de muita gente. No entanto, algo simplesmente patético aconteceu comigo. Estava a andar na rua com diversas coisas para fazer naquele dia. Certamente o dia estava cheio. Eis que passo no jornaleiro. Tinha uma forte convicção de que não havia tempo para a leitura do jornal que desejava comprar (no dia o JB havia me interessado). Neste momento, algo certamente mais forte do que eu me fez parar na banca.

Fui fraco, não agüentei a barra e cedi: comprei o jornal. Pensando sobre aquilo mais profundamente, descobri nitidamente a razão da compra: com um jornal na mão – mesmo que muito provavelmente não desse para ler, o que se comprovou ao fim do dia – eu me dava por informado. Sentia-me em conexão com o mundo. Aquelas folhas, mesmo desconhecidas em termos de conteúdo, me dariam a segurança que precisava para seguir minha vida naquele instante. E julgo que esta situação não é incomum nos dias atuais.

Como saída para esta fulminante epidemia – não acho exagerado o termo, tamanha a conivência da mídia – sugiro que se trate o tema tal como ele deve ser tratado. Não conheço nenhum jornal, tevê ou rádio – alternativo ou não – que levante o tema com a devida seriedade.

Quando falo em ‘seriedade’, não estou apenas dando a importância que meus valores me impõe. Falo também, e principalmente, de urgência. Urgência de se alertar as pessoas que preparam ceias espetaculares de Natal, com todas as variedades possíveis de comida, que não há Natal para todos. Como se pode ter um Natal feliz sabendo que há dor e sofrimento não muito longe dali? Como se consegue comer um prato de comida de forma isenta, quando estômagos vazios gritam em nossos ouvidos pedindo por um pouco mais de solidariedade?

A solução que já consigo enxergar é algo perto de um “consumo consciente”, que basicamente tem dois princípios:

1. O boicote sistemático a produtos que destacadamente prejudiquem seres vivos em qualquer parte do planeta. Temos como exemplo algumas marcas de roupa e calçado que utilizam mão-de-obra semi-escrava e infantil (destacadamente na Ásia, como muitos sabem). Vale a pena se informar das empresas que se preocupam com seus trabalhadores, desde o início da produção, e também com o meio-ambiente. Não é justo que se use uma roupa que tenha causado sofrimento a outro ser vivo. Você, ao comprar, também faz parte do processo.

2. Não desperdiçar. É preciso se envergonhar diariamente com a ignóbil situação pela qual estamos passando e, é bom lembrar, que continuaremos passando até que haja uma verdadeira consciência globalizada. Enquanto uma criança de um lado do mundo pode ter à sua disposição dez vezes mais comida do que precisa, uma outra criança morre de fome. Enquanto uma mulher tem a possibilidade de se vestir de quarenta formas diferentes – e tem gente que ainda tem coragem de dizer que “não tem roupa” para sair – outra está com os mesmos farrapos há um mês. Uma família tem a possibilidade de dormir em três casas diferentes; já uma outra, na mesma cidade, vê seu barraco ser levado pela chuva (que não era tão forte assim).


Não se trata de idealismo. São propostas que já podem ser colocadas em prática. Idealismo é achar que sustentaremos por muito tempo essa realidade de miséria, com 11 milhões de crianças morrendo de doenças evitáveis todo ano, segundo dados da Unicef.

Estão certos os que apontam esta luta como árdua e longa. Estão certos os que dizem que um mundo menos consumista está longe demais. Estão errados, porém, os que pensam que faltará por um único dia, por um único momento, alguém para lutar por esta causa.

Links relacionados:
http://www.adbusters.org/home/
http://www.nothing.net/


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