Viver, por Oded Grajew
O cineasta japonês Akira Kurosawa realizou um filme chamado “Viver” contando uma história de um funcionário público no Japão, após a Segunda Guerra Mundial, que recebe a notícia de que está com câncer no estômago e tem pouco tempo de vida pela frente. Este funcionário seguia o comportamento preguiçoso e conformado de seus colegas na repartição: engavetar todos os pedidos das pessoas que vinham solicitar medidas para melhorar suas condições de vida. Ao tomar conhecimento da doença, ele resolveu dar um sentido ao pouco tempo de vida que lhe restava e mudou seu comportamento, batalhando para que as solicitações fossem atendidas. Pouco a pouco, com muita luta e dificuldades, as coisas começaram a acontecer: a comunidade ganhou uma escola, um posto de saúde, um parque e outros benefícios. O funcionário ganhou respeito e admiração da população. No dia em que ele morreu todos foram ao seu velório enaltecendo seu trabalho e dedicação. De repente, um dos presentes, invejoso das homenagens, comentou: “mas afinal de contas, seu mérito não foi tão grande, pois ele sabia que ia morrer e, portanto tinha que tentar fazer as coisas”. Um outro logo perguntou: “Entre todos que aqui estão, existe alguém que não vai morrer?”.

Este filme vem sempre à memória e novamente agora, por ocasião dos episódios que cercaram a morte do governador Mário Covas. Impressionam as declarações públicas repletas de elogios engrandecedores por parte de muitas figuras da vida nacional. Amigos, companheiros, adversários, desafetos, todos se derretiam em homenagens às suas qualidades pessoais de homem público. O que me impressionou não foram os elogios, merecidos. Me pergunto porque todas as declarações tão enfáticas não foram feitas por muitos antes da doença. É claro que vários oportunistas quiseram tomar carona na emoção geral. Mas certamente Mário Covas teria gostado de ouvir as palavras, receber as homenagens ainda em vida e antes de sua doença de muita gente que deixou o tempo passar e apenas agora resolveu se colocar.

Temos muita dificuldade de admitir nossa mortalidade. Os mortos são muito mais elogiados, cercados de afeto, amor e admiração do que os vivos. Sempre imaginamos que haverá tempo para o carinho e as homenagens. Deixamos o tempo passar achando que sempre teremos oportunidade de fazer as coisas que achamos que seriam as mais corretas, as mais sonhadas, as que dariam um sentido às nossas vidas. Esperamos a aposentadoria para desenvolver as atividades de que gostamos, para nos dedicar às pessoas queridas, para ajudar os necessitados, para participar da comunidade, atuar com espírito público e exercer o dia-a-dia da cidadania.

Muita gente se mata para acumular riquezas, buscando recursos como se pudesse almoçar e jantar diversas vezes ao dia e tivesse centenas de anos para viver. Muitos governantes deixam para o fim do mandato, próximo à morte política, implementar políticas e tomar medidas que deveriam ser adotadas desde o momento da posse. Achamos que haverá sempre tempo para cultivar as relações, cuidar do espírito e alimentar o coração. Que tal começar agora?

O Brasil se tornou o campeão mundial da desigualdade social. Os serviços públicos estão deteriorados. A Lagoa Rodrigo de Freitas, os rios Tietê, Pinheiros, Guaíba e tantos outros estão mortos e inúmeras florestas foram praticamente dizimadas. Nossas crianças estão entre as mais maltratadas do mundo, inviabilizando um futuro melhor para o Brasil. A corrupção prospera diante do silêncio e da omissão dos cúmplices e acobertadores. A violência e a criminalidade estão explodindo.

Tudo isso não aconteceu do dia para a noite. Sempre se achou que não se chegaria a essa situação, que a morte não aconteceria e que alguma medida seria tomada. O Dalai Lama diz que a vantagem de levar a vida dignamente é que a velhice se torna mais rica porque podemos vivê-la novamente. Que tal começar agora?

Oded Grajew é diretor-presidente do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social.

Fonte: O Globo, 16 de março de 2001, pág. 7


Consciência.Net