A sabedoria do monstro, por Luis Fernando Verissimo
Uma vitória no primeiro turno teria dado às pessoas mais tempo para se acostumar com a idéia de Lula presidente — Lula presidente, gente! — mas numa eleição em que Collor, Maluf, Quércia, Mestrinho e Newton Cardoso perderam, e até o Roriz pode perder, querer o Lula de primeira era quase querer demais. Era olho grande. No fim, ganhou tempo para pensar quem tinha aderido ao Lula por resignação, precaução ou simples adesismo, e agora vê que o Serra ainda é viável. Prevêem-se cenas de embaraço, com gente explicando ao Serra que só tentara enterrá-lo antes da hora porque o aspecto dele naquele último debate era o de um morto falante, e espanando a terra da sua fatiota.

Estranho e contraditório monstro, o eleitorado brasileiro. As derrotas de Collor, Maluf, etc. seriam sinais de maturidade, mas o que dizer da vitória do Enéas para a Câmara dos Deputados, em São Paulo, com a maior votação da história? E da volta consagradora de Jader Barbalho ao Congresso? ACM de volta ao Senado só não é outro exemplo de incoerência do monstro porque o caso da Bahia com ele transcende o folclore político e entra pelo misticismo, e religião não se discute. Brizola não está na lista dos “caciques” rejeitados, em primeiro lugar porque não é do mesmo tipo dos citados, e em segundo porque, se o nosso passado ensina alguma coisa, é que nenhum enterro do Brizola pode ser considerado definitivo.

Entre enterrados, conservados e novidades, o monstro, afinal, foi sábio. Mesmo o período de reflexão que se deu antes de escolher o Lula em definitivo foi prudente. E até estratégico. Enquanto o Serra — depois de reanimado, bem alimentado e relançado — for uma alternativa ainda possível, os conservadores e os inconformados mais radicais com a ascensão do Lula estarão ocupados, apoiando-o, com esperança, e não terão tempo para pensar em bobagem.

Enfim, as maquininhas deram conta, todos foram civilizados e prometem que os segundos turnos serão em “alto nível”, não é que este país está começando a parecer uma democracia funcional?

Luis Fernando Verissimo

Fonte: O Globo


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