Produtos do meio, por Luis Fernando Verissimo
    Ainda se discute se criminalidade epidêmica como a do Brasil tem causas sociais ou não. Se o criminoso é um produto do meio ou de uma combinação de patologia e oportunidade: bandido é bandido em qualquer meio, age mais se for reprimido menos. A culpa não seria da miséria, seria de falhas do caráter e da segurança nacionais.

    Mesmo aceitando-se a tese reacionária de que pobreza não gera crime (já que a grande maioria dos pobres não rouba, não mata, obedece às leis etc.), há uma maneira em que o meio influencia o criminoso e o condiciona para matar com naturalidade. Pelo exemplo.
    Todo brasileiro recebe, desde que nasce, uma educação em descaso. Nas privações que sofre ou vê sofrerem à sua volta, tem um curso prático e permanente de desprezo pela vida. Um estado oligárquico que desdenha dos direitos básicos de mais da metade da sua população é um estado criminoso. Uma elite que constrói simultaneamente uma economia de fantasia para ela e uma das sociedades mais desiguais do planeta para a maioria é uma elite serial killer. Nos dois casos, são péssimos exemplos para as crianças.
    Aceitando-se a tese ainda mais reacionária de que a questão social é uma questão de polícia, o meio continua responsável pelo crime. Basta calcular o que poderia ter sido aplicado em segurança do que foi pago em juros para manter nossa dependência no capital especulativo internacional — uma forma de sobrevivência econômica que não se deve à fatalidade ou à falta de alternativas, mas foi conscientemente escolhida e mantida.
    É comum ouvir-se sobre os seguidos massacres nas nossas estradas durante um feriadão que, mais uma vez, a imperícia e a imprevidência dos motoristas brasileiros causaram mortes que poderiam ter sido evitadas. Seriam evitadas em estradas mais seguras, que não foram construídas porque não havia verba, que foi gasta em algo mais importante do que preservar vidas humanas, que é preservar o crédito no cassino. Mais uma vez atribui-se ao caráter nacional, no caso a falhas genéticas dos motoristas, o que é culpa do meio.
    Em tempo, li agora: o Orçamento da União para a segurança pública em 2002 foi reduzido em 28%, em relação ao de 2001.

Fonte: O Globo


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