Do ar, do Luis Fernando Verissimo
Imagine se existisse um aparelho capaz de captar do ar tudo que já foi dito pela raça humana desde os seus primeiros grunhidos. Nossas palavras provocam ondas sonoras que se propagam, e quem nos assegura que elas não continuam no ar, dando voltas ao mundo, junto com as palavras dos outros, para sempre? Como não parece existir fronteiras para a técnica moderna, o aparelho certamente se sofisticaria em pouco tempo e logo poderíamos captar a época que quiséssemos e isolar palavras, frases, discursos inteiros, inclusive identificando o seu lugar de origem. Sintonizar o Globe Theatre de Londres e ouvir as palavras de Shakespeare ditas por atores da época elisabetana, com intervenções do ponto e comentários da platéia, por exemplo. Ouvir, talvez, o próprio Shakespeare falando. Ou tossindo, já que todos os sons que emitimos — espirros, gemidos, puns — também continuariam no ar para serem ouvidos. O grito do Ipiranga. Discursos do Rui Barbosa. O silêncio do Maracanã quando o Uruguai marcou o segundo gol. As grandes frases da Humanidade, na voz do próprio autor! Descobriríamos que Alexandre, o Grande, tinha voz fina, que Napoleão era lingüinha, que a primeira coisa que Cabral disse ao chegar ao Brasil foi “Diabos, encharquei as botas”... As pessoas se reuniriam para sintonizar o passado, à procura de vozes conhecidas e frases famosas.

“Se for para o bem de todos e a felicidade geral da nação, diga ao povo que...”

— Isso não interessa. Muda.

“Gugu”.

— Espera! Essa voz não me é estranha...

“Dadá”.

— Sou eu, quando era bebê! Aumenta, aumenta!

É verdade que não haveria como identificar vozes famosas dizendo coisas banais. Aquela frase, captada numa rua de Atenas — “Aparece lá em casa, e leva a patroa” — pode muito bem ter sido dita por Péricles. Aquela outra — “Um pouquinho mais para cima... Aí, aí! Agora coça!” — pode ter sido dita por Madame Curie para o marido. Ou por Marx para Engels. E não se deve esquecer que algumas das coisas mais bonitas ditas pelo homem através da História foram ditas baixinho, no ouvido de alguém, e não causaram ondas. Da próxima vez que disser alguma coisa que valha a pena no ouvido de alguém, portanto, grite. Você pode estar rompendo um caso de amor, e talvez um tímpano, mas estará falando para a posteridade.

Fonte: O Globo


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