Preocupações, por Luis Fernando Verissimo
Sinto um misto de revolta e inveja quando ouço alguém dizer que está sem nada para ler. Com a cabeceira entulhada de livros que só terminarei de ler com 217 anos, se a luz for suficientemente forte, e já convencido de que nunca cumprirei meu modesto projeto de vida, que é saber tudo sobre tudo, sinto-me ofendido com a queixa insensata. Da próxima vez que um folgado me pedir uma sugestão de leitura, pretendo produzir uma fita bobinada com os títulos de mil livros que ainda não li, de A de Amis a Z de Zweig, e atirar na sua cabeça. O tempo para ler, como a renda, deveria ser melhor distribuído no mundo.

A revolta é a mesma com as pessoas despreocupadas. Aqueles inconscientes que, quando você pergunta como vai a vida, respondem “Maravilha!”. Como, “Maravilha!”?! Nem banqueiro brasileiro tem o direito de dizer “Maravilha”. Se o que falta a esses contentes inexplicáveis é preocupações, eu tenho várias para fornecer. Ninguém diga na minha frente que está sem nada para se preocupar.

Você sabia que existem 36.000 armas nucleares estocadas e 432 reatores nucleares em funcionamento no planeta? Que o Bin Laden está provavelmente vivo e provavelmente planejando uma festa de Natal que nenhum de nós jamais esquecerá? Que mesmo se não for o banho de sangue que se teme, o ataque americano ao Iraque pode ter conseqüências que nem um preocupado como eu consegue imaginar? Que um partido fundamentalista islâmico de direita acaba de ser eleito na Turquia e que uma coisa que o mundo não precisa é de uma reedição do Império Otomano, desta vez com lança foguetes? A contagem regressiva para o ano 2003 pode muito bem ser uma das últimas atividades humanas sobre a Terra até que as amebas resolvam começar tudo de novo.

Espero sinceramente que você tenha alguma coisa para ler na cama, já que espero também ter tirado o seu sono, pelo menos por esta noite.

Fonte: O Globo


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