Juramentos,
por Luis Fernando Verissimo
Que eu me lembre, já
traí três juramentos solenes. O primeiro foi feito dentro
de uma "cabana" improvisada num terreno baldio, entre os membros do "Lijoflapa"
– o nome era formado pelo começo do nome de cada um, eu era o "Li",
de Lico – um clube de amigos que jamais se separariam. Tínhamos
nove ou dez anos e juramos fidelidade eterna ao clube e uns aos outros.
Sei que um já morreu, os outros não vejo há anos.
Fui fiel, pelo menos, à lembrança do juramento.
Outra vez jurei que jamais
me esqueceria de uma menina chamada, chamada... Esqueci. E durante os três
anos em que cursei uma high school em Washington, fiz juramentos diários
à bandeira dos Estados Unidos e à república que ela
representava, com a mão sobre o coração. Um juramento
que eu estava pronto a honrar, se fosse preciso, no campo de batalha, pois
durante o primeiro ano na high school havia treinamento militar obrigatório.
Um dia por semana eu ia para a escola de uniforme – até quepe! –
e fazia ordem unida antes das aulas, preparando-me para um dia lutar pela
bandeira americana contra, presumivelmente, os comunistas.
Aprendi até a desmontar,
limpar e remontar um rifle. Na idade em que meus contemporâneos brasileiros
estavam se politizando na rua, na conturbada era que se seguiu ao suicídio
de Vargas, eu estava apenas resistindo à doutrinação,
me indignando com o macartismo e lendo os colunistas "liberais", do que
passava por esquerda, nos Estados Unidos. Só quando voltei ao Brasil,
com 20 anos, é que comecei a ler com alguma consistência o
que a minha geração já tinha lido, inclusive o básico,
Marx (pelo menos o 18 Brumário) e os marxistas brasileiros. Depois
Lukacs, Benjamin, Gramsci, Deutcher sobre Trotsky, etc. Estou um pouco
atrasado, portanto, e isto talvez seja bom.
Na idade em que muitos
ativistas de esquerda da minha geração já renunciaram
a todas suas antigas convicções e aderiram ao neoliberalismo,
eu estou recém na fase utopista. Quando chegar a minha vez de me
converter à direita ou, como um dr. Strangelove incapaz de controlar
sua mão direita, uma compulsão antiga me fizer repetir o
juramento à bandeira americana eu já estarei morto, e salvo.
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