Segunda opinião, por Luis Fernando Verissimo
    Todas as opiniões sobre a espécie humana são suspeitas porque até hoje não se ouviu uma que não fosse feita por um humano. Dos bichos, que poderiam fazer uma avaliação isenta, o único com condições de dizer qualquer coisa, o papagaio, não diz nada. Só repete o que ouve, e se tem alguma opinião a nosso respeito guarda para si. Muita gente jura que fez contato com seres extraterrenos, alguns bastante críticos com o que vêem aqui, mas também não existem depoimentos confiáveis sobre a Humanidade, em primeira mão, de visitantes do espaço. Assim, estamos condenados à auto-apreciação. Não nos poupamos, às vezes somos impiedosos no julgamento de nós mesmos, mas não adianta. Estamos comprometidos. Não há como escapar ou disfarçar: somos humanos. Todos os nossos amigos e parentes são humanos. Sempre acabamos encontrando desculpas e atenuantes.

    Assim como é para a espécie humana, é para os países. Quando vem alguém como esse suíço Jean Ziegler, que prepara um relatório para a Organização das Nações Unidas sobre o direito à alimentação, e diz que no Brasil a miséria é um escândalo e a fome é um crime, nossa primeira reação é de revolta. Ah é? Ah é? E o problema dos imigrantes na Suíça? E as contas secretas de bandidos? E o queijo fedorento? Não precisamos de ninguém para nos dizer o que já sabemos e lamentamos e gostaríamos que fosse diferente. Mas o sr. Ziegler era o homenzinho verde do espaço que faltava, para chegar sem compromisso com ninguém e ver e dizer o óbvio. Como não é do lugar, não tem o hábito do lugar, este longo convívio com a desigualdade que nos absolve, no nosso próprio julgamento. Ou seja, é um sem-atenuantes e sem-desculpas. Disse o que viu, não só a miséria e a fome mas o contraste entre o país martirizado e o outro. Pois o maior escândalo e o verdadeiro crime estão nessa distância, que só aumenta com a social-hipocrisia.
    Ah, mas o sr. Ziegler é um socialista. Está explicado. A miséria e a fome no Brasil não são obscenas, o sr. Ziegler é que é de esquerda.
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