A normalidade e o caos, por Luis Fernando Verissimo
    Se entendi bem a lógica do momento, a situação do país é tão grave que seria temerário entregá-lo a qualquer outra facção que não a responsável pela situação ter ficado tão grave. Algo na linha do imperativo doméstico que a gente ouvia da mãe: quem sujou que limpe. Mas como os que sujaram não reconhecem que sujaram – pelo contrário, se identificam como guardiões de uma normalidade ameaçada pela vitória da oposição –, a analogia não vale.

    Qual é exatamente o "caos" que viria com a eleição do Lula? Crise financeira, estagnação econômica, desemprego, um clima social explosivo?
    Isso tudo já tem. Essa é a normalidade ameaçada. Até o pior efeito previsto de uma mudança de modelo, a fuga do capital especulativo, já começou, e o que o espantou não foi a cara feia do Lula, mas o reconhecimento de que esse modelo não se sustenta. O pânico com a possibilidade de um calote não vem do medo da "esquerda", que no poder não seria nem burra nem suicida, mas do tamanho da dívida, e o que tornou a dívida terrível foi a política de dependência total adotada pelo atual governo. Muito mais assustador – a longo prazo, até para os especuladores – do que a perspectiva de uma mudança deveria ser a perspectiva da continuação deste caminho sem alternativa para o desastre.
    Mas tal é o domínio do pensamento econômico hegemônico sobre a nossa mente colonizada, que ele consegue até definir conceitos que a realidade em volta desmente, como os de "normalidade" e "caos". Essa guerra civil permanente no meio da qual a gente vive não é o caos. Ou é um caos perfeitamente normal. A seriedade e a sensatez que uma aventura esquerdista supostamente destruiria são representados pelos índices de desenvolvimento social que elas alcançaram.
    Escolha qualquer um: saneamente básico, habitação, energia... Depois de oito anos de dependência total, ficamos dependentes até do vocabulário e dos valores do capital financeiro, como caddies miseráveis que adotam os hábitos dos ricos para os quais carregam o saco de golfe. A conveniência do mercado especulativo se tornou o nosso parâmetro de normalidade, e qualquer alternativa ao seu domínio, o nosso parâmetro de terror.

Fonte: Zero Hora


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