A nossa cara, por Luis Fernando Verissimo
    Pra ver como a gente somos injusto. Todo esse tempo pensando o pior da Roseana e ela era apenas outra mulher enganada pelo marido. Todo esse tempo pensando que o PFL era o máximo em esperteza, oportunismo, norrau e savoar-fere políticos, e ele foi enganado por uma mulher – e uma mulher enganada!

    Que nos sirva de lição: todo o mundo é inocente até a última instância, e mesmo assim ainda há a oportunidade de fugir para a Itália. Ainda vamos descobrir que o Maluf botava dinheiro do próprio bolso no governo, e quero ver a nossa cara quando canonizarem o Jader Barbalho. Pela multiplicação das rãs, sei lá.
    Não precisamos ir muito longe: todo esse tempo pensamos que o FMI estava fazendo o Éfe Agá de bobo, e agora descobrimos que estava, mas (arrá!) ele sabia. Não há nem por que duvidar de que o Murad estivesse mesmo juntando dinheiro escondido da mulher, para lhe dar um presente: "Querido, o que eu sempre quis, a Presidência da República!" Quero ver a nossa cara.
    Na verdade, com a corrida eleitoral ameaçando virar luta-livre na lama, temos que nos preparar para tudo o que vão fazer com a nossa cara. Vão esfregar coisas nela, vão gozar com ela... Entremos nessa, pelo menos, com a cara lavada, livres do feio hábito brasileiro da conclusão precipitada.
    Nos próximos meses saberemos mais do que gostaríamos de saber sobre caráter, hábitos de higiene, antecedentes familiares, taras, vícios, amigos, contas em ilhas, um certo fim de semana em Cancún, possíveis pactos com o demônio, relações com a comunidade da informação, tiques desagradáveis, multas não pagas, flatulência e até planos de governo de todos os candidatos. Vão nos passar tudo isso na cara. Para não repetirmos nossa injustiça com a Roseana, devemos suspender o julgamento até podermos comparar todos os dossiês e decidir qual candidato merece o nosso voto, ou desesperar e emigrar.
    Afinal, estão pensando que a gente tem cara de que, provavelmente com razão?
Consciência.Net