Último dia
do veraneio, os dois abraçados na praia, aquela coisa meio desesperada
(ele 17 anos, ela 15), ela dizendo:
- Nunca vou esquecer
você, Márcio Luiz. Nunca.
- Nunca mesmo,
Ana Laura?
- Nunca, nunca.
Só de pensar que nós só vamos nos ver de novo no verão
que vem...
- Um ano passa
rápido.
- Não!
Um ano é um tempão. Um ano é demais. Eu não
vou agüentar.
- Vai.
- Eu vou morrer.
- Não vai.
Eu não morri.
Ela não
entendeu.
- Você não
morreu?
- Quando nós
nos separamos no ano passado. Pensei que fosse morrer, e não morri.
- Nós nos
conhecemos no ano passado?
- Nós namoramos
no ano passado, Lalá. E quando nos despedimos, você disse
que nunca ia me esquecer.
- Peraí.
Eu namorei você no verão passado?!
- Positivo. Passamos
os veraneio inteiro juntos.
- Tem certeza
que era eu?
- Tenho, Lalá.
- Tem certeza
que era você? Com o mesmo nome?
- Era eu, Lalá.
Era você. Só era outro verão.
- Mas seu cabelo
era diferente.
- Era.
Maria Laura ia
dizer: "Viu como eu não esqueci?" Mas não disse. Sentiu que
alguma coisa adulta tinha sido instalada nela, como um novo softer. Disse:
- Viu só?
Um ano é muito tempo. Um ano é tempo demais!
2. PATRÍCIA POETA E O TEMPO HOJE (FINAL)
Decidiu procurar um psiquiatra. Doutor, disse, eu sei que é uma loucura, eu sei que é um delírio, mas tenho a impressão que a Patrícia Poeta está me mandando mensagens pela televisão. É com o cabelo, doutor. Quando o cabelo de um lado está na frente do ombro, ela quer me dizer uma coisa, quando está atrás, é outra. Eu sei que as mensagens são para mim, só não sei quais são. Não é uma loucura, não é um delírio, disse o psiquiatra. Ela realmente está enviando mensagens. Não para você, um oligofrênico megalômano com forte componente de narcisismo patológico. Para mim. Para mim!
3. REPUTAÇÃO
Teve que trabalhar
no carnaval, ficou na firma até tarde, desceu no elevador com uma
mulher lindíssima, uma mulher de parar o trânsito, mas o que
parou foi o elevador, entre o sétimo e oitavo. Carnaval, ninguém
no prédio para ouvir o alarme, os dois presos no elevador, conversa
vai, conversa vem, e aconteceu. Sexo nas alturas. E o tempo todo ele pensando:
"Isto não está acontecendo. Isto só acontece em filme.
Isto não pode estar acontecendo comigo!" Uma mulher daquelas!
Depois, os dois
deitados lado a lado no chão, ela perguntou:
- Você sempre
fica triste assim, depois?
- Não,
não. É que eu estava pensando... Ninguém vai me acreditar.
- Sei...
- Ninguém.
Nunca tive uma história destas para contar pros amigos,e agora que
tenho, não adianta. Eles não vão acreditar.
- Você pode
tentar.
- Não posso.
Se tentar, vão me arrasar. Entende? É meio subentendido entre
eles que eu tenho sorte com mulher. Justamente porque eu sou discreto e
nunca conto vantagem. Se contar o que me aconteceu agora, não só
não vão me acreditar, como minha reputação
vai por água abaixo.
- Se eu puder
fazer alguma coisa...
- Não.
Nada. Obrigado.
- Desculpe.
- O que é
isso? A culpa não é sua.
- Quem sabe se
eu, sei lá. Der um atestado. Ou se você ficar com a minha
calcinha...
- Seria pior!
Eles iam pensar que eu estava me esforçando demais para provar o
que aconteceu, e até achar suspeito. Um deles fatalmente diria:
"Eu sempre achei que ele era veado..." Porque só veado tem que provar
que não é.
Quando finalmente
consertaram o elevador, os dois se despediram e, antes de ir cada um para
um lado, ele pediu:
- Por favor, não
conte nada para ninguém.
- Pode deixar.
Luis Fernando Verissimo. Publicado
em 04/03/2001.
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