Últimas do verão, por Luis Fernando Verissimo
1. AQUELA COISA MEIO DESESPERADA

   Último dia do veraneio, os dois abraçados na praia, aquela coisa meio desesperada (ele 17 anos, ela 15), ela dizendo:
   - Nunca vou esquecer você, Márcio Luiz. Nunca.
   - Nunca mesmo, Ana Laura?
   - Nunca, nunca. Só de pensar que nós só vamos nos ver de novo no verão que vem...
   - Um ano passa rápido.
   - Não! Um ano é um tempão. Um ano é demais. Eu não vou agüentar.
   - Vai.
   - Eu vou morrer.
   - Não vai. Eu não morri.
   Ela não entendeu.
   - Você não morreu?
   - Quando nós nos separamos no ano passado. Pensei que fosse morrer, e não morri.
   - Nós nos conhecemos no ano passado?
   - Nós namoramos no ano passado, Lalá. E quando nos despedimos, você disse que nunca ia me esquecer.
   - Peraí. Eu namorei você no verão passado?!
   - Positivo. Passamos os veraneio inteiro juntos.
   - Tem certeza que era eu?
   - Tenho, Lalá.
   - Tem certeza que era você? Com o mesmo nome?
   - Era eu, Lalá. Era você. Só era outro verão.
   - Mas seu cabelo era diferente.
   - Era.
   Maria Laura ia dizer: "Viu como eu não esqueci?" Mas não disse. Sentiu que alguma coisa adulta tinha sido instalada nela, como um novo softer. Disse:
   - Viu só? Um ano é muito tempo. Um ano é tempo demais!

2. PATRÍCIA POETA E O TEMPO HOJE (FINAL)

Decidiu procurar um psiquiatra. Doutor, disse, eu sei que é uma loucura, eu sei que é um delírio, mas tenho a impressão que a Patrícia Poeta está me mandando mensagens pela televisão. É com o cabelo, doutor. Quando o cabelo de um lado está na frente do ombro, ela quer me dizer uma coisa, quando está atrás, é outra. Eu sei que as mensagens são para mim, só não sei quais são. Não é uma loucura, não é um delírio, disse o psiquiatra. Ela realmente está enviando mensagens. Não para você, um oligofrênico megalômano com forte componente de narcisismo patológico. Para mim. Para mim!

3. REPUTAÇÃO

   Teve que trabalhar no carnaval, ficou na firma até tarde, desceu no elevador com uma mulher lindíssima, uma mulher de parar o trânsito, mas o que parou foi o elevador, entre o sétimo e oitavo. Carnaval, ninguém no prédio para ouvir o alarme, os dois presos no elevador, conversa vai, conversa vem, e aconteceu. Sexo nas alturas. E o tempo todo ele pensando: "Isto não está acontecendo. Isto só acontece em filme. Isto não pode estar acontecendo comigo!" Uma mulher daquelas!
   Depois, os dois deitados lado a lado no chão, ela perguntou:
   - Você sempre fica triste assim, depois?
   - Não, não. É que eu estava pensando... Ninguém vai me acreditar.
   - Sei...
   - Ninguém. Nunca tive uma história destas para contar pros amigos,e agora que tenho, não adianta. Eles não vão acreditar.
   - Você pode tentar.
   - Não posso. Se tentar, vão me arrasar. Entende? É meio subentendido entre eles que eu tenho sorte com mulher. Justamente porque eu sou discreto e nunca conto vantagem. Se contar o que me aconteceu agora, não só não vão me acreditar, como minha reputação vai por água abaixo.
   - Se eu puder fazer alguma coisa...
   - Não. Nada. Obrigado.
   - Desculpe.
   - O que é isso? A culpa não é sua.
   - Quem sabe se eu, sei lá. Der um atestado. Ou se você ficar com a minha calcinha...
   - Seria pior! Eles iam pensar que eu estava me esforçando demais para provar o que aconteceu, e até achar suspeito. Um deles fatalmente diria: "Eu sempre achei que ele era veado..." Porque só veado tem que provar que não é.
   Quando finalmente consertaram o elevador, os dois se despediram e, antes de ir cada um para um lado, ele pediu:
   - Por favor, não conte nada para ninguém.
   - Pode deixar.

Luis Fernando Verissimo. Publicado em 04/03/2001.


Consciência.Net