Quer se goste
ou não, a guerra que os Estados Unidos e seus aliados travam contra
o que eles chamam de terror já tem dois vencedores. A indústria
bélica e Bin Laden. A indústria bélica porque conseguiu
um país inteiro para realizar novos testes e para se livrar das
armas que considera obsoletas. Bin Laden porque, vivo, será aclamado
como herói; morto, será o primeiro mártir do século
21. Graças ao Ocidente, muçulmanos de todo o mundo, que até
então ignoravam a existência do saudita e condenavam o governo
taleban, acompanham com apreensão o desenrolar dos acontecimentos
no Afeganistão. Pela primeira vez na história, assiste-se
a manifestação de uma Internacional Islâmica a lembrar
a Guerra Civil Espanhola, quando internacionalistas de todo o mundo se
uniram para enfrentar o fasci-nazismo.
Com o fim
da Guerra Fria, a corrida armamentista perdeu sua razão de ser.
Mas uma indústria que fatura 1 trilhão de dólares
por ano e que vive da morte não ia entregar os pontos sem mais nem
menos. Era preciso encontrar imediatamente um novo inimigo. Mas teria de
ser um inimigo substancial, que substituísse o Império do
Mal, como era denominada a União Soviética. Por isso não
foi nenhuma surpresa a manifestação de Bush após os
atentados e, até hoje, sem nenhuma prova, acusar os muçulmanos
adjetivando-os, sintomaticamente, de Império do Mal.
Qualquer
semelhança com o antigo inimigo soviético não é
mera coincidência.
A partir
daí, teria início a Jihad ocidental.
O clima
de intolerância, de racismo e de ódio contra os muçulmanos
contou com a adesão imediata da mídia, que ignorou seu papel
de informar, para se transformar em feroz propagandista. Manipulou até
a declaração do papa, associando-a à conclamação
para a guerra santa do reverendo-moteleiro Billy Graham. O que a mídia
do Ocidente faz por convicção a mídia terceiro-mundista
faz por ignorância, ou por desconhecimento total do mundo que a cerca.
Que não
se enganem. O Afeganistão é apenas um dos palcos de luta.
Outros teatros deverão ser montados, de preferência alguma
nação miserável de religião islâmica.
E os muçulmanos não ignoram isso. Basta ver o que acontece
na Palestina. Os territórios ocupados assistem à invasão
de tanques israelenses, numa arrogância sem par. Mas isso também
já era esperado, ou alguém ignora o passado de Sharon?
Quem se
esquece dos massacres nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, no Líbano?
Ou do desfile
diário de palestinos, carregando seus mortos rumo aos cemitérios?
Ou das crianças
que servem de alvo para os fuzis dos soldados hebreus?
Mas alguém
pode entender um povo que elege um criminoso de guerra?
Aos apressados
informo que há um processo no Tribunal de Haia acusando Sharon por
crimes contra a humanidade.
Ao contrário
do que muitos supõem, os atuais revolucionários islâmicos
possuem educação secular. São médicos, engenheiros
e profissionais de outras áreas que não se deixaram contaminar
pela sociedade de consumo.
Utilizam
palavras de ordem que a esquerda assinaria embaixo. Acusam os Estados Unidos
de responsável pela manutenção de governos brutais
e repressores, que idolatram a moeda, conspurcam o solo sagrado de Meca
e ofendem Allah.
Segundo
a ONU, nos próximos dois meses deverão morrer mais de 7,5
milhões de afegãos pela fome. E que cada míssil disparado
pelos Estados Unidos daria para alimentar 50 mil afegãos durante
um mês.
Mas alguém
se importa?
No Alcorão
está escrito que tudo o que há no céu e na terra pertence
a Deus. E que Ele não gosta dos mustakbirun (arrogantes). E são
esses mustakbirun que hoje governam a humanidade que, apesar dos avanços
tecnológicos, matam pela fome e pela exclusão mais do que
todas as guerras, desde a aurora da humanidade. São eles os culpados
pela jahiliya (ignorância e barbárie).
Lutar contra
a jahiliya é salvar a humanidade.
Georges Bourdoukan é jornalista e escritor, autor de A Incrível e Fascinante História do Capitão Mouro e de O Peregrino
Fonte: Caros
Amigos
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