Trágico
e Cômico, por Luis Fernando Verissimo
Jorge Furtado foi a Cuba e
quando chegou no quarto do hotel notou que a privada não tinha assento.
Reclamou com a camareira, dizendo que sem assento não se pode usar
uma privada. A camareira olhou para o Jorge com divertida tolerância
e respondeu, sorrindo:
- Se puede, se
puede...
Também
se pode desenvolver algumas teses sobre Cuba, o supérfluo, e os
limites do sacrifício individual pelo coletivo a partir do assento
de privada que não havia. Se o Jorge tivesse dito que, por mais
simpatia que a experiência eles nos desperte, não se pode
aceitar a eternização de Fidel no poder ou a repressão
política em Cuba, talvez ouvisse da camareira a mesma resposta:
"Se puede, se puede.." Ou então poderia ter reclamado da falta do
assento na privada e ouvido:
- Mas você
precisa ver o nosso serviço de saúde pública.
Até onde
o assento de privada é um conforto descartável por uma sociedade
mais solitária? Ou até onde um anteparo entre as nádegas
e o frio da louça - e não estamos falando de assentos acolchoados
com forros zebrados, mas de prosaicos assentos de classe média -
é realmente uma necessidade básica, com trocadilho? Ou até
que ponto um assento de privada não simboliza, digamos, os 20% de
energia que estão nos pedindo para poupar, subentendendo-se que
"se puede", sim, viver sem eles?
A ausência
do assento na privada do Jorge, em Havana, foi culpa de uma privação
momentânea, não decorria de uma política nacional de
banheiros. Do mesmo modo, o racionamento de energia no Brasil é
uma emergência, não uma perversidade. As privações
de Cuba são causadas pelos poucos recursos de uma economia marginalizada
e boicotada, as do Brasil pela obediência a um plano imposto que
promete nossa salvação quando as finanças estiverem
definitivamente estabilizadas ou nós todos estivermos definitivamente
mortos, o que vier primeiro. A lição deste paralelo é
que tanto faz ser insurgente quanto subserviente, dá nos mesmo.
Ficamos sem assentos de privada.
E para um visitante
que estranhe nossa falta de energia, de vergonha e de alternativas, ainda
podemos dizer:
- E você
precisa ver nosso serviço de saúde pública.
Luis Fernando Verissimo
Fonte: Zero Hora, 13/06/01
Consciência.Net