A Globalização do terror, por José Paulo Cavalcanti Filho
   Nessa terça foi como se um Apolo sombrio voltasse à terra. E o mundo mudou. Nunca mais será o mesmo. Sentimos essas perdas de agora como se fossem de gente da família. Sartre escreveu que o estado natural do homem é a violência. Em momentos como esse chego a pensar que ele tem razão.

   De parte a dor, devemos todos tentar compreender as razões pelas quais algo assim pode ocorrer. E uma das explicações possíveis está na globalização. Durante muito tempo essa globalização econômica atendeu às necessidades dos países mais ricos. E ruim demais para os países que ainda convivem com a exclusão social. Agora mesmo a Argentina assiste ao desmantelar da nação, ante a omissão inconcebível do primeiro mundo. Bastaria que os Estados Unidos abrissem mão de 1% de seu orçamento militar (340 bilhões de dólares). No Brasil, o que vemos, é uma acumulação de pobreza que ofende nossas consciências. Mas ao invés de se sentirem indignados, eles nos enviam mais uma missão do FMI com recomendações explícitas para que apertemos mais o cinto. O primeiro mundo, em nenhum momento, demonstrou sequer compaixão com os que morrem de fome.
    A globalização foi, para eles, uma espécie de conquista do paraíso. Mas, agora se vê, estavam errados. Que, ao lado dos juros, estavam levando para casa também bombas. O preço a pagar por esse modelo econômico insensato, que desconsidera mínimos de fragilidade, é a violência. É a ausência absoluta da paz. É o terror. E tudo acabou saindo caro demais.
   Cada cidadão americano, ao entrar num restaurante, ao dormir num hotel de luxo, terá sempre uma ponta de angústia. Já nem falo em andar de avião. Quem por exemplo viajou recentemente pela América Airlines, dentro dos Estados Unidos, sabe que já com tíquete de embarque na mão somos ainda obrigados a ir para outro setor, apontado como grosseria. Levando com as mãos malas que são abertas e revistas com sofreguidão mórbida. Depois passando por rigorosa revista de raio X. Uma fiscalização constrangedora. Tudo, como vimos, ainda insuficiente.
   A solidariedade que expressamos, como pessoas, é a que vem da natureza humana. O homem chora pelo homem, seu irmão. Mas o primeiro mundo só se preocupa com esses mortos. Não se considera responsável por povos inteiros que fenecem aos poucos, de miséria e fome. O mercado é Deus. Mas, agora esse Apolo americano, super-homem em crise existencial, já não basta.
   Tanto sangue. O muito que já correu no rastro de terroristas. E o muito que ainda vai correr, no rastro de bombas americanas que virão inevitavelmente – atingindo pessoas que não tinham culpa. Um horror. Por tudo isso, é preciso que esse modelo econômico mude. Para que toda essa dor não tenha sido em vão.
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