Depois de um primeiro momento de ilusionismo e deslumbramento, as coisas começam a ficar claras até para o senso comum das ruas: essa ''transição civilizada'' entre o governo Fernando Henrique Cardoso e o de Luiz Inácio Lula da Silva está muito mais para armadilha do que para ato de grandeza.
Mas num primeiro momento cheguei a temer uma espécie de beatificação política, em função do consenso no noticiário logo após a divulgação da novidade. Com louvaminhas, inclusive, a esse bizarro quadro provisoriamente assalariado de funcionários encarregados de passar os dados. Consciente ou inconscientemente, colocaram o presidente eleito numa posição de obrigatoriamente grato ao que, em fim de mandato, já opera como se não lhe coubessem mais responsabilidades. E, de repente, algo a ser visto como nada além de uma obrigação republicana – transparência na transferência de responsabilidades – se transformava em concessão de grande estadista. Com direito a conselhos e reprimendas.
Ora bolas, não se trata aqui de uma simples substituição de gestores de uma grande corporação, onde o retirante aposentado dá orientações ao novato que assume. Trata-se, sim, do fim de um governo derrotado pelas conseqüências dramáticas do modelo neoliberal que implementou, subordinando nosso país aos interesses predatórios dos grandes especuladores, daqui e de fora, travestidos de investidores. Errou em tudo? É claro que não. Tem aspectos positivos? Evidentemente que sim, considerando-se os limites de questões acessórias. Mas o julgamento do mérito quem fez foi a votação recorde dada a Lula em 27 de outubro.
O que houve, nas festas ocorridas em todos os recantos do país, após a divulgação do resultado das urnas, com o povo na rua de uma forma que não víamos desde a eleição de Tancredo, em 84, foi a celebração da vitória de uma alternativa oposta. Uma alternativa simbolizada na recusa do nosso passado recente. Uma alternativa pautada na mobilização dos movimentos sociais contra os privilégios do grande capital financeiro; pela soberania nacional e pela justiça social.
Não havia sentido, portanto, na tentativa de transformar em herói magnânimo da novela, pela ''isenção'' durante a campanha eleitoral, exatamente o derrotado – isto mesmo, Fernando Henrique também, e não apenas Serra. Como se, nestes últimos meses, seus próprios porta-vozes mais autorizados da área econômica não tivessem permanentemente concorrido para a desestabilização do processo institucional, através de declarações oficiais. Quantas vezes a responsabilidade pela vulnerabilidade de nossa economia, por conta das opções do atual governo, não foi transferida, de forma surrealista, para o futuro ainda não materializado que as pesquisas eleitorais apenas apontavam?
Nesse contexto, é fundamental que não se tente fazer da transição – como já senti em vários debates públicos dos quais participei, ou aos quais assisti – uma caixa do esquecimento das causas do quadro dramático em que o governo atual é transferido. De agora em diante, esse encontro de equipes tem que servir para revelar ao conjunto da sociedade tudo o que for constatado como produto concreto das ações deste governo cuja responsabilidade só se encerra em 31 de dezembro. Produto, aliás, que já foi aqui mesmo dissecado, semana passada, por alguém insuspeito de simpatias com a esquerda – José Carlos Azevedo, no seu artigo Conselhos de Maquiavel.
Como os números não têm identidade ideológica, os que o conservador Azevedo apresenta com respeito ao desmonte de nossa economia e ao crescimento de nossa dívida como opção de governo somente reiteram Fiori, Beluzzo, Mercadante, Maria da Conceição e Reynaldo Gonçalves, apenas para citar alguns dos que, por suas previsões e análises, há muito são estigmatizados como mentores intelectuais dos ''dinossauros'', ''neobobos'' e outras categorias do gênero.
Se isso for oficialmente trazido a público, as soluções poderão ser muito mais solidariamente encontradas.
Milton Temer é jornalista
Fonte: JB
Consciência.Net