O Convescote
do Banqueiro Setúbal, por Milton Temer
O banqueiro Setúbal,
magnata supremo do Itaú, convocou para jantar em sua casa o presidente
da República. Em torno da mesa, certamente farta, estava uma seleta
dos mais poderosos donos do Produto Interno Bruto. Novidade? Nenhuma. Foi
apenas mais um encontro do poder formal, leia-se FHC, com o poder real,
leia-se os mesmos de sempre. Objetivo? Diante da crise que se agrava, fortalecer
a fraternidade ativa intra-elites e encontrar saídas que garantam
os interesses – tanto os imediatos quanto os estratégicos – dos
donos do poder.
Mais do
que a proteína animal, portanto, estava na mesa a proteína
política que alimenta o governo, o modelo atual e o seu regime.
O presidente, de volta à Brasília, tomou logo providências.
Passou o dia inteiro reunido com a cúpula da equipe econômica
para, certamente, executar o que foi recomendado no banquete. Já
despacharam os estafetas para passar o pires no Fundo Monetário
Internacional. Vem aí, podem estar certos, mais do mesmo. Mais arrocho,
mais corte no orçamento para os serviços públicos
essenciais, juros mais altos, mais desemprego. Enfim, vão apertar
o torniquete vil que está estrangulando o Brasil e os brasileiros.
É o círculo vicioso e a lógica infernal de um modelo
que produz, ao mesmo tempo, a tragédia social e a alegria dos banqueiros.
E tem mais.
Os donos do poder estão preocupados com a sucessão presidencial.
Aliás, entre as "entradas" do jantar havia um texto, assinado
pelo professor Fábio Wanderley Reis, tratando do assunto. O professor,
a julgar pelas declarações do próprio, entrou na história
como Pilatos no credo. E ele já cuidou, rápido, de lavar
as mãos. Mas o tema, certamente, foi a peça de resistência
do jantar. O mesmo banqueiro Setúbal, não faz muito, tratou
do assunto na coluna da jornalista Dora Kramer. E o fez com clareza meridiana.
Disse, por exemplo, que estava se afastando da direção dos
seus negócios para dedicar tempo integral ao trabalho de interferir
na sucessão presidencial. Mais, que o debate sucessório se
dará entre o modelo atual e aquele que vier apresentar o PT. Mais,
que o PIB e o mercado financeiro ainda tem muito receio do PT e tudo fará
para garantir a continuidade do atual modelo. Mais claro, impossível.
A promiscuidade
entre o cerne do governo e a alta cúpula da banca privada, que o
jantar revela, é o eixo de sustentação da tirania
financeira que nos governa. Tudo o que de ruim nos acontece passa pela
malha desta cumplicidade. O arrocho, a entrega, a privataria, a grossa
corrupção – que segundo o especialista Barbalho está
na Av. Paulista –, a manipulação da mídia, a interferência
do poder econômico nas eleições através de procedimentos
que, de tão escancarados, nem são capitulados como crime
na justiça eleitoral, enfim, todos os pilares do atual regime.
Ao contrário
do que recomenda a regra da boa alimentação, os poderosos
jantam juntos para manter o regime. Foi o que fizeram no convescote do
banqueiro Setúbal.
Milton Temer é deputado
federal pelo PT-RJ
Fonte: Expresso
Vida Nº 79
Consciência.Net