A Era dos
Extremos, por Boaventura Sousa Santos
Entre o extremismo dos que governam
e o dos que se lhes opõem mingua o espaço da democracia.
A história é
simples e foi publicada no New York Times. Al-Najjar, palestiniano, foi
para os EUA em 1984 para se doutorar e aí ficou a ensinar numa universidade.
Em 1997 foi preso por alegadamente, segundo "prova secreta", ter reunido
fundos para uma organização terrorista. Há cerca de
um ano, o tribunal decidiu, em sentença de 56 páginas, que
não se tinha provado qualquer colaboração com o terrorismo
e mandou-o em liberdade. No final de novembro passado voltou a ser preso
por ligações ao terrorismo com base nas mesmas provas que
o juiz declarara improcedentes. Está em regime de isolamento durante
23 horas por dia e não pode ver a família. Como é
apátrida e provavelmente nenhum país o aceitará sendo
"terrorista", corre o risco de ficar o resto da sua vida na prisão
sem nunca ter sido condenado por nenhum crime.
Esta história ilustra
o extremismo que está por detrás das novas leis antiterroristas
promulgadas nos EUA, do USA Patriot Act à ordem presidencial de
criação de tribunais militares, os quais, apesar de se basearem
em prova secreta e não admitirem recurso, podem declarar a pena
de morte. A onda de suspeição e de repressão que se
abate sobre os estrangeiros residentes de origem árabe ou de religião
muçulmana começa a estender-se aos cidadãos americanos,
com os novos poderes concedidos ao FBI para vigiar organizações
políticas e religiosas. A definição de quem é
terrorista ou de quem acolhe terroristas é tão vaga que o
Financial Times se pergunta se ser senhorio de um terrorista é vínculo
suficiente ao terrorismo.
Muitas das organizações
que têm participado na luta anti-globalização podem
ser consideradas terroristas ou atentatórias da segurança
nacional nos termos das novas leis.
Este extremismo ocorre
em simultâneo com o que se abate na Palestina. De um lado o extremismo
do Governo de Israel e do outro o extremismo do Hamas. Entre eles, um cadáver
adiado, o de Arafat. Em ambos os lados do Atlântico, o mesmo discurso
de guerra contra o terror, a mesma tentação dos governantes
de utilizarem as crises para concentrarem os seus poderes e se furtarem
ao controle democrático dos cidadãos e dos tribunais. É
um extremismo tentacular com prolongamentos que passam despercebidos.
Nas recentes eleições
na Nicarágua foi manifesta a ingerência dos EUA contra o candidato
sandinista, Daniel Ortega. Um dos spots publicitários mais eficazes
do candidato apoiado pelos EUA tinha a foto do Osama bin Laden e em voz
off: "Se ele pudesse votar na Nicarágua votaria no Comandante Daniel
Ortega".
Eric Hobsbawm definiu
o que designou por "curto século XX" (1914-1991) como uma era de
extremos para significar o carácter dramático dos conflitos
e das transformações que ocorreram em tão curto período,
das guerras mundiais à revolução, do nazismo, do fascismo
ao socialismo, dos "anos de ouro" ao colapso da União Soviética,
do desenvolvimento técnico-científico sem precedentes ao
risco de aniquilamento da humanidade pela ameaça nuclear ou pela
catástrofe ecológica.
E terminava o livro com
a advertência que, se o mundo não rompesse com este passado,
o futuro seria muito negro. Os recentes acontecimentos mostram que continuamos
em plena era dos extremos.
Ao extremismo da desigualdade
entre ricos e pobres que se agravou nas duas últimas décadas,
junta-se o extremismo dos Estados poderosos e o extremismo dos únicos
opositores que eles temem e agora chamam terroristas. Num mundo assim polarizado,
onde está o lugar para a democracia e para os democratas?
Fonte: Revista Visão, 13 de Dezembro
de 2001
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