PT se confronta entre chegar ao poder e seu programa, por Mauro Santayana
    O partido surgiu como alguma coisa nova e pôde ter de marxistas a reformistas de todas tendências. Segundo alguns, essa marca tem impedido o partido de chegar à presidência. Para isso, as correntes moderadas, com apoio de Lula, têm procurado alianças à direita

    O PT se confronta, neste momento, com um dos mais difíceis problemas da política, o da opção entre o programa e o poder. O partido surgiu como alguma coisa nova, porque supunha representar uma ideologia precisa, a da classe operária. Dentro dessa idéia ampla, podia – como pôde – incluir marxistas, socialistas mais ou menos avançados, social-democratas radicais, católicos e protestantes de esquerda, comunistas autênticos e reformistas de todas as tendências e, mais tarde, os cidadãos convencidos da ética dos administradores petistas.
    Segundo alguns, essa marca ideológica tem impedido a vitória eleitoral de Lula. Para viabilizar o acesso ao poder, correntes moderadas do partido, com a adesão de Lula, têm procurado alianças à direita. Sendo assim, o líder do PT fez uma incursão ao mundo do capitalismo, acompanhando o industrial José Alencar às suas fábricas (todas localizadas na área subsidiada da SUDENE) e jantou com o bispo Rodrigues.
    Em política, como gostava de dizer Tancredo, não há acréscimos sem que haja perdas. Uma visão pragmática (quando se quer chegar rapidamente ao poder) recomenda fazer soma e redução, para verificar se o saldo é vantajoso. O anúncio de uma possível aliança, com a incômoda convivência de Lula e Luís Antônio Medeiros em uma mesma mesa, trouxe perplexidade a algumas lideranças do partido e o apoio de outras.
    Convinha a José Dirceu gastar um pouco do dinheiro do Fundo Partidário e realizar uma rápida pesquisa no eleitorado para saber o que a opinião pública está pensando desse movimento em direção à direita, mesmo que seja para chegar ao centro. É bom lembrar o que ocorreu com a aliança entre o PSDB e o PFL no governo. A maioria das pessoas que votou em Fernando Henrique na primeira eleição supôs que os seus compromissos éticos pessoais prevaleceriam sobre a aliança espúria com a direita. Na reeleição, foram levados a repetir o voto mediante o medo, difundido, a serviço do presidente, em todos os meios de comunicação, de que, com a situação desesperada da economia, o FMI exercesse retaliação que levasse ao caos interno.
    Os eleitores do PT – que são muitas vezes mais o número de seus filiados – talvez tenham dificuldades em entender por que um pelego notório, como Luis Antônio Medeiros, venha a aliar-se com o partido de Vicentinho. Na parcela progressista da Igreja Católica – que tem sido, desde o início, a principal aliada do PT – a perplexidade não é menor. Por isso é importante que os dirigentes do Partido dos Trabalhadores consultem as bases reais do PT, antes de selar definitivamente a aliança.

Mauro Santayana é jornalista e colunista da Agência Carta Maior

Fonte: Agência Carta Maior


Consciência.Net