Hiperinflação
Festejou, no ano seguinte,
a volta da democracia e a posse de Raúl Alfonsín, então
líder de um partido (União Cívica Radical) quase centenário,
dos mais tradicionais das Américas. Na campanha presidencial, Alfonsín
jurou que, com a democracia, viriam também boa educação,
cuidados com a saúde, comida para todos. Seu governo foi encurtado
em seis meses, engolidos pela hiperinflação, que, por sua
vez, gerou os saques que agora se repetem (ironia das ironias, em outro
governo de um líder radical).
A Argentina tentou, então,
em 1989, a volta ao peronismo, o mais clássico e bem sucedido populismo
da América Latina, um continente em que o populismo fez, para o
bem e para o mal, a maior parte de sua história pós-independência.
Mas a versão moderna do peronismo, encarnada por Carlos Saúl
Menem, arquivou todo o receituário clássico do peronismo
e enveredou pelo mais completo guia de medidas neoliberais. Exceto por
um aspecto, hoje crucial: congelou o câmbio, uma intervenção
do Estado em um preço que os liberais dizem que deve ser regulado
pelo mercado.
Menem ainda conseguiu
um segundo mandato, mas terminou-o desprestigiado, pela corrupção
e pelo fato de que a recessão já estava instalada. Tão
desprestigiado que passou meses preso, sob acusação de venda
irregular de armas, sem que houvesse a menor comoção no país.
Crise aguda
Ao exuberante Menem sucedeu
o "aburrido" Fernando de la Rúa, que, chamado para mudar o rumo
do país, preferiu, este ano, recorrer ao mago do câmbio congelado,
Domingo Cavallo, apesar de este não ter passado dos 10% dos votos
quando tentou se eleger presidente. Cavallo já não tinha
mais coelhos para tirar da cartola, e o país foi afundando com uma
crise aguda a cada mês, primeiro, a cada semana, depois, a cada dia,
atualmente.
Contada essa história,
entende-se a desesperança dos argentinos, que já se manifestou
na eleição parlamentar de outubro, com recorde de votos nulos/brancos
e de abstenção. Por ironia, mais uma, é a desesperança
que sustenta o derrotado De la Rúa. Se ele renunciar, pedido que
se faz cada vez mais na Argentina, assume o presidente do Senado, Ramón
Puerta (peronista), cinza demais para entusiasmar alguém.
Nessa hipótese,
Puerta comandaria a transição até a eleição,
pela Assembléia Legislativa (Câmara e Senado), de um novo
presidente. O novo presidente tem que ser escolhido apenas entre os que
têm mandato eletivo (governadores, deputados e senadores). Ou, posto
de outra forma, teria que ser eleito alguém do mesmo conjunto que
sofreu rejeição recorde nas parlamentares de outubro.
Tudo somado, parece a
letra de um tango. Pena que seja um resumo da história recente da
Argentina e das perspectivas para o futuro imediato.
Clóvis Rossi é colunista da Folha de São Paulo
Fonte: http://www.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2012200116.htm
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