Povo, Mídia e Funk - Algumas considerações sobre a alienação cotidiana, por Renato Kress
  Quando se monopoliza a ideologia premente na atuação social perde-se no vácuo do pensamento único o significado já aviltado da palavra democracia. A manipulação da opinião pública pela mídia e o direcionamento da mídia pelo que Noam Chomsky denomina de "Minoria Próspera" conduz à tão temida ideologia do pensamento único, à alienação completa, à criação da sociedade autômata.

  A vivência de uma inversão de valores engendrada em grande parte no núcleo citadino e em menor escala no meio agrário é a conjunção de vários fatores que vêm se avolumando por décadas. A tese freudiana de que a repressão do "id" - lado instintivo - sobre o "ego" - lado socialmente aceitável, racional - geraria patologias psíquicas e psiquiátricas inundou a mente dos pais da geração de fim dos anos 70 e início dos 80, pais que viveram em grande repressão na época da ditadura. O que fez com que essa tese tenha vindo com uma interpretação tendenciosa.
  O crescimento do mercado depende da ascensão da ideologia consumista que prima pela exaltação do "ego", como expressão de uma pseudo hierarquia social, e pela transformação desse "ego" em "id", em instinto compulsivo, animalesco. Isso gera a sociedade consumista que alimenta o aparelho capitalista.
  Nessecita-se de algo que reprima o lado intelectual, o lado crítico da sociedade. Para tal exalta-se a sexualidade, lado instintivo, "id". Maneira prevista também dentro de um outro prisma na obra de Maquiavel, que hoje serve de base a bons cursos de propaganda e "marketing". Dessa forma inibe-se a crítica racional ao exterior e gera-se uma postura passiva, acéfala e apática em relação à constante fragmentação do sistema de valores que rege uma sociedade.
  A convivência com um fato por longo tempo, segundo Maquiavel, torna-o uma verdade indissolúvel, força a aceitação de determinadas situações moralmente aviltantes e, em grandes escalas, nacionalmente autofágicas.
  A convivência com um fato moralmente aviltante ou com posturas nacionalmente autofágicas, segundo Freud, gera um impulso inverso de resistência que possa equilibrar a balança "ego-id" social, o que Marx definiu como sendo o âmago da história da sociedade, a exaltação de um dos lados da balança, a insurreição do lado menosprezado, a luta de classes.
  Resta saber se a sociedade atual optará pelo estigma maquiavélico, aceitando indefinidamente a alienação, ou freudiano, rebelando-se contra a repressão ao lado intelectual e crítico do ser humano. E  também dar uma piscadela para a genialidade do Marx.

Renato Kress é co-autor deste jornal e autor do livro “Consciência”.


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