Para adeptos da matemática, ele poderia ter simplificado a escrita recorrendo à potenciação, com o que economizaria em algarismos. Mas perderia o impacto da extensão do número, precisamente o efeito pretendido por Andahazi. Para além da fabulosa soma, só como um surplus, um palácio devastado, pilhado de qualquer móvel, podre de todos os excrementos acumulados ao longo de uma geração de desatino, roubo e deboche... Qualquer semelhança com a Argentina não seria, como se advertia nos filmes quando estes eram realistas, mera coincidência. O capítulo final da novela de Andahazi intitula-se Argentina Sono Fin”.
A oposição brasileira, mais diretamente o PT, se chegar ao governo da República pelas eleições de outubro próximo, encontrará cenário igual. Ninguém se engane. Todos que lutam pela transformação no Brasil e os que se empenham pela vitória da oposição e da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva têm a obrigação de preparar-se para o choque de realidade que nos espera. Não para nos acovardarmos e dizermos “melhor não vencer, pois com um cenário dessa magnificência “terrorífica” fracassaremos e conspurcaremos nosso ideal”. Longe disso: a urgência é tamanha que até a espera imposta pelas regras democráticas só agrava a tensão. Mais algum tempo do desmantelo, os 20 anos do Reich prometidos pelo Sergio El Sinistro e, provavelmente, o estado de coisas preparado por El Príncipe não nos dará chance de retorno por algumas décadas.
Os jornais têm sido abundantes nos sinais do desastre. É claro que não os interpretam assim. Na discussão desatada pelo affaire Murad-Roseana, o patriarca Sarney ameaçou retaliar com insinuações sobre como livrou cara do atual presidente de possíveis implicações em escândalos na Cosipa, quando ele próprio estava sentado no Planalto. A coluna do Josias de Souza, na Folha de S. Paulo de domingo 11, sobre o “Murad de José Serra”, deveria fazer o Ministério Público mobilizar-se na mesma medida em que o fez no caso da Sudam para, no próximo capítulo, vermos a entrada da Polícia Federal nos escritórios do citado “Murad de José Serra”. Todo mundo sabe, e a imprensa sabe mais do que todo mundo, e os serviços secretos daqui e a CIA também sabem, que os negócios da privatização das teles são dignas de El Príncipe, do Andahazi...
Não bastasse, a matéria de Elio Gaspari sobre “A história secreta da desvalorização cambial de 1999”, resenhando livro lançado nos USA pelo jornalista Paul Blustein, do The Washington Post, mostra o despreparo do governo FHC para lidar com a “apreciação” do real, que ele inventou e que custou 39 bilhões de dólares, incluídos os 9 bilhões emprestados pelo FMI, torrados no delírio estabilizante. O livro conta, segundo a breve resenha de Gaspari, como o FMI na verdade comandou a substituição da âncora dolarizada por uma “banda endógena” e, logo depois, pelo câmbio flutuante, depois de ter sustentado, com o apoio explícito de Bill “Levinski” Clinton, a irresponsabilidade de Cardoso/Malan/Franco, cujos objetivos listavam a reeleição de Cardoso.
A dívida pública interna brasileira é hoje cerca de 60% do PIB, seus serviços levam 25% das receitas federais e o prejuízo do Banco Central no exercício de 2001 foi de 15 bilhões de reais, mais ou menos 1% do PIB. Pode-se argumentar que a dívida interna pública do Japão é da ordem de 130% do PIB; mas, convém lembrar, o Japão é credor mundial e não devedor.
Do outro lado da “banda endógena”, os bancos acusaram lucros fabulosos que, somados, devem igualar-se ao prejuízo do Banco Central. Quem estiver pensando que uma coisa tem a ver com a outra, acertou. Estudo brilhantemente criativo e recente de Reynaldo Gonçalves, professor titular de Economia da UFRJ, aponta FHC como o pior presidente da República, numa lista da qual ele retirou apenas Deodoro, Floriano e Prudente de Moraes.
O período de FHC aparece como de medíocre crescimento do PIB, um dos menores, em média 2,3%, para os 11,9% do celerado Médici e os 8,9% de Juscelino, com quem FHC gosta de comparar-se. O atual governo aumentou a vulnerabilidade externa ao ponto máximo, compreendida como a relação entre as exportações e a dívida externa, multiplicou a vulnerabilidade financeira por quatro, no conceito de relação entre a dívida interna pública e o PIB. Só se notabilizou pela estabilidade monetária.
Bandos de criminosos formaram verdadeiro comboio bélico para assaltar aviões em Sorocaba, enquanto no Rio uma luta de facções pelo controle de favela botou na rua um “exército de 200 soldados” – foi assim que a notícia os denominou – dos traficantes, com armamento pesado, mais sofisticado que os da polícia. Num caso, Alckmin aproveitou para zerar a conta negativa do seqüestro e assassinato de Celso Daniel e, no outro, evaporou-se a propaganda de Garotinho. A mortalidade por homicídio é a hoje a principal causa mortis masculina na faixa dos 15 aos 24 anos na cidade de São Paulo, invertendo a tendência histórica de queda da mortalidade, que já vem desde o século XIX.
As mortes por atropelamento aumentaram extraordinariamente nas cidades-capitais durante o recente período de racionamento de energia elétrica, que deixou às cidades às escuras. Dois apagões no curso de cinco anos e um racionamento de energia que durou nove meses. Isto é que é governo! Como se diz hoje que o capital se reproduz na imagem e pela imagem, esta é a conta de 198 dígitos da novela de Andahazi. El Príncipe é aqui, está aqui.
Francisco de Oliveira é professor-titular aposentado do Depto. de Sociologia da USP e coordenador do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da FFLCH-USP