Num grande lance, a Nike teve a idéia de vender a personalização de seus tênis. O cliente paga US$ 10 adicionais e recebe o calçado com o seu nome, o da namorada ou o que bem entenda. Jonah Peretti, de 27 anos, resolveu encomendar um par de tênis com a palavra sweatshop. Ela designa um local onde as pessoas trabalham em condições precárias, recebendo salários aviltados. Outro consumidor teve exatamente a mesma idéia.
A Nike é acusada de vender tênis produzidos em países asiáticos por mão-de-obra aviltada. Um levantamento junto a quatro mil trabalhadores de nove das 25 fábricas que servem à empresa na Indonésia revelou que 56% dos trabalhadores queixam-se de insultos verbais, 15,7% das mulheres reclamam de bolinas e 13,7% contam que sofreram coerção física no serviço. Esse estudo foi realizado sob o co-patrocínio da própria Nike. Outro levantamento, feito no Vietnã, mostrou que os trabalhadores ganham US$ 1,60 por dia e teriam que gastar US$ 2,10 para fazer três refeições diárias. Banheiros, só uma vez por dia. Água, duas vezes. O descumprimento das normas de uso do uniforme é punido com corridas compulsórias. Em outros casos, o trabalhador é obrigado a ficar de castigo, ajoelhado. A fábrica da localidade de Sam Yang trabalha 20 horas por dia, tem seis mil empregados, mas o expediente do médico é de apenas duas horas diárias.
Peretti e o outro cliente da Nike queriam a palavra sweatshop nos seus tênis Nike para lembrar coisas desse tipo.
A empresa informou-lhes que não podia colocar a palavra nos sapatos. Argumentou que o regulamento da promoção exclui gírias e palavras consideradas impróprias. Tendo-se provado que sweatshop não é gíria, a empresa agarrou-se na impropriedade. As duas encrencas foram parar na Internet, uma delas acabou na televisão e, finalmente, no "The New York Times".
A Nike sustenta que faz o possível para melhorar as condições de trabalho das fábricas a quem encomenda seus produtos. Algum esforço certamente ela faz, mas os seus intermediários estão muito próximos da condição de traficantes de mão-de-obra escrava. Tanto é assim que os poucos contratadores que já andaram pelo Nordeste brasileiro acharam que por cá o trabalho é muito caro. As cooperativas nacionais pagam pouco, não assinam carteira, mas remuneram as férias e o décimo-terceiro salário. Com esse custo, a mão-de-obra aviltada brasileira fica três vezes mais cara que a asiática.
Faz tempo que o governo brasileiro alia-se aos asiáticos para impedir a inclusão das chamadas "cláusulas sociais" nas normas de comércio internacional. Se fizer o dever de casa e estudar a estrutura de preços dos seus competidores, poderá ter uma surpresa. Aquilo que por cá se chama de Custo Brasil é uma componente da civilização nacional. Se há empresas multinacionais aviltando o trabalho na Ásia, os brasileiros têm mais é que ajudar a puni-las. Até porque, como o exemplo mostra, são os americanos que estão pegando no pé da Nike.
Elio Gaspari para o jornal O
Globo
Consciência.Net