Os 11 do Alvorada
Eram onze. Não era um time, era uma seleção: Benjamin Steinbruch de Volta Redonda, David Feffer da Suzano, Pedro Piva da Klabin, Emilio Odebrecht da própria, Luís Nascimento da Camargo Correa, Katy Almeida Braga do Icatu, Ricardo do Espírito Santo e mais quatro, todos ilustres e fornidos empresários nacionais.
No palácio público, com dinheiro público, servidores públicos, tudo com o meu, o seu, o nosso dinheiro (Armínio Fraga), Fernando Henrique lhes ofereceu um lauto jantar no Palácio da Alvorada (todo jantar em palácio é lauto) para pedir dinheiro para um fundo de R$ 10 milhões, com que vai criar uma ONG, para financiar a vida dele, depois que deixar o governo.
Se isso fosse feito pelos prefeitos de Acauã no Piauí, Manari em Pernambuco e Cacimbas na Paraíba (as três cidades mais pobres do País), seria um escândalo e as TVs, jornais e revistas pediriam a cabeça deles.
Política e moral
Mas o tucanato conseguiu a indulgência
plenária. Podem fazer tudo, mesmo o mais aético, que logo
aparece o filósofo tucano Artur Gianotti para dizer que política
nada tem com moral, uma é uma coisa, a outra é outra coisa.
Elio Gaspari tem razão em ter ficado
indignado:
"É absurdo que um empresário
seja financiado pelo BNDES num guichê e, noutro, ponha dinheiro na
ONG do presidente" ("O Globo").
Essa ONG é o gongo do último assalto. Fernando Henrique quer esse dinheiro para sair pelo mundo mostrando como, em oito anos, se quebra um País rico, se eleva uma dívida interna de R$ 60 bilhões para R$ 900 bilhões, se aumenta uma dívida externa de US$ 100 bilhões para US$ 270 bilhões, se aumenta para 20 milhões os desempregados, se joga os juros para 21%, etc.
Lula no Torto
Lula não pode começar errado, indo para o Torto. Os países constroem seus palácios porque, neles, seus dirigentes são símbolos da Nação. No mundo todo é assim. Presidente dos Estados Unidos mora na Casa Branca. Da Rússia, no Kremlim. Da França, no Elysée. De Portugal, no Palácio de Belém.
Que Lula queira usar a discreta e tranqüila Granja do Torto para descansar os fins de semana com a família, perfeito. Mas, durante a semana, o presidente da República tem que morar no palácio da presidência, de plantão. Lembre-se Lula de que não morar no Alvorada foi o primeiro erro de Collor.
O Ministério da Defesa
Outro erro do Collor que Lula não deve repetir: pôr um qualquer no Ministério da Defesa. Collor fechou o SNI, e fez bem, mas pôs para cuidar do inventário o jovem e anônimo PP, Pedro Paulo, um tapa nas Forças Armadas.
Estão falando em Genoino, do PT, e Aldo Rebelo, do PC do B, para o Ministério da Defesa. São dois dos melhores jovens líderes do País. Mas Genoino veio da luta armada na guerrilha do Araguaia e Aldo da resistência clandestina do PC do B, que a comandou. Por grandes que sejam os méritos deles, e são, propor um deles para comandar generais, almirantes e brigadeiros, mais do que uma provocação, seria uma suprema burrice, que Lula não cometerá.
Lula quer um grande civil para a Defesa? Aí está o veterano e venerando senador Pedro Simon, com meio século de vida pública, sabedoria e integridade. E ainda resolveria um problema difícil: Simon é o único do PMDB governista que votou em Serra e não macularia o governo de Lula.