A volta do
lagarto: as milícias brazucas estão por aí,
por Claudio Julio Tognolli
Uma das vertentes políticas
que mais choca o leitor de jornais será a chamada bancada dos "crentes"
– e, faute de mieux, as promessas que os políticos recém-religiosos
fazem ao eleitorado "crente". Acostumados que estamos ao ecumenismo tipicamente
brazuca, nada de novo nas escrituras, portanto. Mas o problema é
bem outro: os desdobramentos irracionais desses pontilhismos religiosos
e até onde podem chegar os garotinhos das novas fés.
Já
que o que acontece por lá a gente logo copia por aqui, falamos da
mais nova praga dos EUA: as "militias". O ATF, o órgão gringo
conhecido como "Birô de Tabacos e Armas", tem se dado a combater
essas milícias, armadas, hoje mais de 300 naquele país. "Seus
líderes têm um sonho. Dizem que o sonho coincide com o que,
digamos, Thomas Jefferson falou e com certos extratos da Bíblia
que eles recortaram. Compram armas, arrebanham os descrentes na vida...
está fundada uma nova milícia", disse a este repórter
o agente James Gallipoe, de Los Angeles.
No Brasil,
os números são assustadores. Uma legião que varia
entre 30 e 35 milhões de fiéis brasileiros (185 Maracanãs
lotados) acreditou que o juízo final, ou o dia do apocalipse, poderia
ter acontecido no ano 2000. Os números se referem aos dados fornecidos
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o
Instituto Cristão de Pesquisas (ICP), dando conta dos brasileiros
evangélicos, o que inclui membros de igrejas como a Presbiteriana,
Batista, Metodista, Assembléia de Deus, Deus é Amor e Universal
do Reino de Deus. Acreditam no fim do mundo baseados nas leituras dos textos
de Mateus, Habacuque e do Livro dos Provérbios.
Essa diversidade
de datas e meios pelos quais virá o juízo final reside em
várias interpretações bíblicas do capítulo
4º, versículo 18, onde se faz menção à
vinda da "luz", que arrebatará os fiéis aos céus.
E mais: segundo a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil
(CNBB), a Igreja Católica "perde", em média, só no
Brasil, 600 mil fiéis por ano para outras religiões, sobretudo
as apocalípticas.
Há
membros de seitas que esperam o fim do mundo para qualquer hora, desde
agora. Em 1992, por exemplo, as seitas coreanas Bank ik Ha e Missão
Taberá, do Brás (zona leste de SP), anunciaram o fim do mundo
para o dia 28 de setembro daquele ano – também escolhido como o
ano "final" pela seita carioca Auto-Clamor.
A Missão
Taberá postulava que a língua dos anjos que desceriam do
céu seria o coreano. E que as "bestas" do apocalipse poderiam ser
identificadas por trazerem o "código de barras" na testa (três
séries de seis barras, igual à Besta 666...).
Nesse brazilzão
desesperançado, está portanto criado o terreno ideológico
que deu vida às poderosas milícias dos EUA. Franz Kafka já
alertava que nós, humanos, não sobrevivemos sem um lar ideológico
(ao que ele chamou de homus domesticus). Este o novo lar oferecido aos
brazucas "murchos de coração e de fé" é perigoso
porque irracional, com interesses articulados ao prazer da criatividade
de seus mentores. Mas não foi sempre assim???
Claudio Tognolli é jornalista
e professor universitário
Fonte: Caros
Amigos
Consciência.Net