Conhecimento para um Brasil melhor, por Rodrigo Baggio
Tecnologia também é inclusão social

   O ingresso da humanidade na Era da Informação é um fato, mas ainda apenas para uma pequena parcela da população. As novas tecnologias, em particular a internet, vieram para ficar e já começaram a alterar o comportamento da sociedade - como um dia fizeram o telefone, o rádio e a TV. Há 100 anos, ninguém imaginava que o desenvolvimento tecnológico nos daria a alcunha de Sociedade da Informação. Agora temos uma infinidade de soluções digitais cada dia mais surpreendentes e avançadas. Entretanto devemos estar atentos para não nos iludirmos, confundindo progresso com pirotecnia. Se esse conhecimento acumulado não for compartilhado pela sociedade como um todo, corremos o risco de ratificarmos o abismo que separa os ricos dos pobres.
   No Brasil, a nova economia soluça demissões e muitos investimentos têm sido repensados, quando não chegam a ser cancelados. Depois de confirmada a desaceleração no ritmo de crescimento do setor para níveis mais realistas, tentamos entender os motivos do que temos visto por aí. Mesmo com uma parcela mínima da população tendo acesso ao maravilhoso mundo novo dos negócios virtuais, colocamos uma super expectativa em uma atividade novíssima entregando esperanças de que a rede mundial pudesse dar novo fôlego ao cenário local e seu desempenho econômico num prazo recorde. Temos tido pressa em não perdermos o bonde da história, mas não levamos em conta o fato de que as novas tecnologias requerem um investimento em infra-estrutura e ainda são dispendiosas. Para se ter uma idéia, dados publicados mostram que nos EUA, uma máquina de marca, com 500 MHz, 64 Megabites, 6 gigabites e DVD custa cerca de US$ 1.800. No Brasil, o mesmo equipamento é vendido por cerca de R$ 5.500.
   Além disso, temos esquecido que ainda vivemos em um país com um índice crítico de analfabetos. Segundo dados do IBGE, o Brasil tem hoje 20 milhões de pessoas incapazes de ler e escrever. Entretanto, ainda não se sabe quantos são os analfabetos digitais, aquela categoria de pessoas despreparadas para viver a interação com as máquinas. A precariedade de condições a que essas pessoas estão submetidas, colocam-nas também, muito provavelmente, integrando os índices do desemprego e do trabalho informal, crescentes em nossa realidade.
   A nova divisão internacional do trabalho, por outro lado, reflete uma reestruturação do processo produtivo, e novos postos e perfis profissionais são exigidos. O novo trabalhador deve ser um sujeito com permanente capacidade de aprendizagem e de adaptação a mudanças, deve saber trabalhar em grupo, de preferência em equipes multidisciplinares, e ter domínio da linguagem das máquinas. Ou seja: deve também ser alfabetizado do ponto de vista digital.
   Assim, o mundo da tecnologia também se configura como uma forma de inclusão social. A aprendizagem da informática e o acesso às novas linguagens de comunicação e informação, não só possibilitam oportunidades econômicas, de geração de renda, como também representam um importante capital social.
   Para um efetivo progresso, é necessário que esse assunto também esteja presente na elaboração de uma política de informática equânime e justa. Nesse caso, devemos acompanhar de perto a evolução da nova proposta do presidente da República, que esteve recentemente em reunião com ministros da área econômica e da Ciência e Tecnologia. A pauta dá conta de muitas mudanças que estão por vir como computadores mais baratos, concessão de financiamentos para a compra de máquinas e a constituição de um fundo para dotar escolas públicas de equipamentos e treinamento de professores e alunos.
   Mas que treinamento será esse? Aí é que precisamos estar atentos ao tipo de formação que será oferecida, pois não basta somente ensinar como ligar uma máquina ou em que botão mexer. É o que chamamos no Comitê para Democratização da Informática de "o clique pelo clique". Finalizamos este mês, numa parceria com o NIED da Unicamp, a sistematização do material pedagógico aplicado nas Escolas de Informática e Cidadania. Compilamos os resultados de cinco anos de trabalho em uma proposta político-pedagógica e na metodologia de ensino da informática e conteúdos de cidadania. Estamos cada vez mais convencidos de que chamar a atenção para o desenvolvimento de temas sociais é um dos diferenciais relevantes de nosso trabalho.
   Mais uma vez eu toco na tecla de que a tecnologia se constitui como uma ferramenta e não um objetivo em si. Devemos colocar a máquina a trabalho do nosso progresso e benefício. Porque acreditamos que o analfabetismo digital só pode ser combatido através de uma política de acesso universal aliada à educação. Nas escolas, a tecnologia poderá ajudar a formar os trabalhadores de amanhã. Digitalmente alfabetizados e, se nos preocuparmos, mais conscientes de seu papel na construção de um país melhor.

Rodrigo Baggio é presidente do Comitê para Democratização da Informática
E-mail: cdi@cdi.org.br

Valor Econômico, São Paulo, em 26/10/00.


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