Semana internacional
da mulher – nada a comemorar, por Gilberto Marotta
Eu poderia tentar justificar este título
com aquele velho chavão que os conquistadores mandam quando são
criticados ao esquecerem a data que a mídia tem se esforçado
por enaltecer: "Todo dia é dia da mulher". Nada mais verdadeiro.
O próprio reducionismo a uma data já seria um bom caminho
para começar a elucidar a questão, verificar porque os homens
foram tão bonzinhos garantindo um cantinho pras mulheres no calendário.
Mas, embora correndo o risco de ser chamado de misógino ou machista,
o que estou muito longe de ser, prefiro entrar na questão por outra
perspectiva, mais direta: o que temos a comemorar?
Até onde posso
ver, a sociedade humana foi por milhares de anos essencialmente patriarcal.
O homem, com sua força, foi atirado para a luta pela sobrevivência,
enquanto a mulher, por ter a dádiva de gerar e parir, assumiu de
bom grado a responsabilidade de cuidar dos filhos, e assim foi durante
muito tempo. O que as feministas comemoram hoje, e tanto a mídia
como a massa reverberam acriticamente, é a inversão, em parte,
desses valores, ocorrida no último século.
Seria motivo para comemoração,
por exemplo, o número crescente de mulheres na direção
de empresas ou na política. Neste último caso, lança-se
mão ainda de um argumento neandhertal, tosco, que não sobrevive
a um segundo de tranqüila reflexão: a mulher seria mais honesta
que o homem, ou pelo menos teria um jeito diferente, mais "humanístico",
de administrar a coisa pública. Daí pra comemorar-se a possibilidade
inédita de uma mulher chegar à presidência, foi um
pulo. Não importa que mulher seja esta. Haja visto que mais de 60%
das mulheres estão com Roseana, como dizem as pesquisas. Algo assim
como: se é mulher, é boa. Ser mulher seria, por esse raciocínio
infantil, em si uma qualidade, tanto como ser homem um defeito. Como se
todas as mulheres fossem iguais, e todos os homens por conseguinte.
Pouco importa a essas
senhoras se a candidata for uma pilantra, um Collor de saias, perpetuadora
de um feudo no Maranhão, fechado em seu castelo enquanto a fome
grassa à volta. Pouco importa que a ação desta senhora
e a de seus antecessores familiares tenha transformado o Maranhão
no país mais miserável do Brasil. Pouco importa que esteja,
juntamente com o marido, envolvida nas mais diversas falcatruas, que ao
ser investigada por determinação da justiça uma Roseana
venha à TV clamar que não tem medo e deseja que as investigações
vão até o fim, enquanto outra Roseana vocifera entre os seus
que um governador deve ter o privilégio de ser avisado antes de
ser investigado, ao mesmo tempo em que consegue, através de uma
legião de advogados (que seria dos poderosos sem eles...) uma liminar
no STJ que paralisa as investigações.
Pouco importa ainda que
o PFL desta senhora que se vangloria de sua condição de mulher
no partido figure em último lugar no quesito participação
de mulheres em suas instâncias internas: apenas 5% no Diretório
Nacional, sem voz na Executiva. Ainda de acordo com os dados do Centro
Feminista de Estudos e Assessoria, o PT encabeça a lista dos que
têm maior participação feminina, sendo elas 27,78%
do Diretório Nacional petista e 33,34% da Executiva. É uma
lavada do PT que nenhum veículo da mídia mostrou. Mas essa
mídia também é composta de mulheres: Fátima
Bernardes, Ana Paula Padrão, Marília Gabriela, Claudete Troiano,
Astrid Fontenelle, Hebe Camargo, Luciana Gimenez, Babi, Adriane Galisteu,
Dora Kramer, Tereza Cruvinel, Míriam Leitão, Joyce Pascovitch,
Danuza Leão, demais editoras, produtoras, repórteres, porque
não noticiaram este fato? Porque teriam se contentado em dar espaço
(mesmo quando de forma crítica) e conferir extraordinária
importância à candidatura de Roseana, que em nada acrescenta
ao mundo feminino, muito pelo contrário, ao meu ver o indigna.
Saindo da administração
pública e passando para a gestão de empresas, o que tenho
visto igualmente não são as mulheres se destacando por trazer
algo novo para a ciência da administração. Elas apenas
ocuparam mais espaço, mas nada transformaram. Ocuparam espaços
masculinos num mundo que ainda é, sem sombra de dúvida, masculino.
Não há sequer vislumbre de algum suposto mundo feminino,
alguma nova proposta, um projeto diferente de sociedade.
Talvez alguma me venha
dizer: "ora, as mulheres primeiro estão ocupando os espaços,
para depois, aí sim, com o controle, fazer as mudanças".
É um argumento cínico, o mesmo que a direita tem usado no
poder para justificar o eterno adiamento da questão da distribuição
de renda. "O bolo tem de crescer para que possa ser dividido", é
o que eu ouço desde os ministros dos governos militares. Mas crescendo
ou não, o Brasil aumenta sua concentração de renda.
A distribuição dá-se ao contrário, tira-se
de muitos para dar a uns poucos. Tanto neste caso, como no caso da emancipação
crescente das mulheres, não se evidencia qualquer mudança
na prática. Há apenas uma retórica e o desejo de estar
no controle, no poder. Na minha modesta opinião, as mulheres aparentam
ser melhores que os homens apenas porque, em números absolutos,
estão em minoria no poder. À medida em que forem ocupando
os espaços masculinos, vão se contaminar e corromper, tanto
quanto seus antigos donos. Aliás, nas poucas vezes em que ocuparam
postos de maior poder em escala mundial, as mulheres quando não
foram apenas artífices da continuidade, conseguiram até superar
os homens em projetos nefandos, como as canhonaças Madeleine Albright
e Margareth Tatcher não me deixam mentir.
Sei que as feministas
vão cair de pau, mas é preciso admitir que as mulheres, até
aqui, fracassaram. Nada indica que elas representem, ou estejam à
frente de um projeto realmente alternativo, de sociedade e de poder. Lembram
daquelas operárias queimadas vivas, aquelas que ousaram abraçar
uma causa libertária pagando com a própria vida? Pois é,
foi a lembrança delas que inspirou, ou pelo menos criou o pretexto,
para o dia internacional da mulher. No entanto, devem estar se virando
em suas covas ao verem o quanto suas descendentes estão confortáveis
disputando com os homens as vagas de líderes num mundo opressor.
E falo do poder na macroeconomia e na política, mas falo também
do poder nas mínimas células sociais, as famílias.
A mulher tinha em suas mãos a faca e o queijo, tinha a educação
do novo homem e da nova mulher em suas mãos, mas o que fez? Apenas
perpetuou a visão de mundo masculina.
No meu cotidiano classe
média, eu tenho ouvido constantemente de amigos: "cara, as mulheres
não estão valendo nada..." É uma queixa cínica,
óbvio. O homem estimulou essa mercantilização do corpo
feminino o mais que pôde, interessado em ter seu sexo tão
necessário sem ter que dar a natural contrapartida, o amor. Se a
contrapartida é dinheiro, então, aí estamos no nosso
terreno, o jogo é mais fácil. Mas até mesmo o homem
já anda cansado disso.
Pelo país, multiplicam-se
os bingos eróticos, em que a mulher é rifada em uma cartela,
vale uma seqüência de números, seu corpo único
e maravilhoso é um bem material como outro qualquer. Na TV, a bundolândia
impera, os corpos femininos são exibidos em partes, como num açougue.
Outro dia, na rua, eu vi uma menina de cerca de sete anos cantando um tal
funk do Serginho, pronunciando com desenvoltura expressões que não
ouso colocar aqui. Aprende-se fácil, os carros de som repetindo
à exaustão em altíssimos e dolorosos decibéis
esse repertório pleno de criatividade (nas bancas, as revistas pornográficas
são censuradas com tarjas. Cadê a coerência?) O curioso
é que essa menininha, que provavelmente vai engrossar a triste estatística
das mães-meninas daqui a alguns anos, não estava sozinha.
Cantarolava de mãos dadas com a mãe, que nem tchum para o
seu repertório. Talvez ache até bonitinho.
Eis aí a questão.
Há algum tempo, ao dar-me conta desse crescente movimento de emancipação
feminina, eu tinha esperanças de que seria a mulher quem romperia
com esse modelo desumano, autofágico, destrutivo, criado e imposto
pelo homem. Hoje o que vejo é que, em regra, a mulher não
quer mudar o mundo, transformá-lo, mas apenas se apossar dele, ou
do que sobrar depois, os escombros. É uma luta inglória e
burra, mas as comemorações cegas que ouço por aí
não me animam a acreditar que vai haver alguma guinada nessa história.
Tudo indica que, se o homem fez da Terra um lugar cada vez mais pobre em
qualidade de vida, cada vez mais injusto e inseguro, a mulher persegue
o posto de controladora deste mesmo mundo, e não de sua redentora.
Ao se apoderar finalmente dos instrumentos necessários para construir
a sua própria história, a mulher apenas anuncia a continuidade
da história criada pelo homem. A mulher em que depositei todas as
minhas esperanças não traz revolução, mas conformismo.
Recentemente, no Fórum
Social Mundial, havia homens e mulheres participando, o que me dá
a certeza de que não é o sexo, ou como diria a tia Tetéia,
ter ou não bilau o que vai determinar a salvação do
mundo. O que pode salvar o mundo é uma consciência, feminina,
e uma decisão, masculina, qualidades que estão presentes
igualmente em homens e mulheres. Só precisam ser despertados.
Gilberto
C. Marotta é jornalista e colaborador do Consciência.Net
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