Maldita atualidade, por Luis Fernando Verissimo
A subcomissão do Senado que investiga o desvio de verbas do TRT de São Paulo concluirá que foi um atentado da esquerda e não se falará mais nisso. Daqui a alguns anos o caso será reaberto e se saberá a verdade, ou algo parecido. Pois passados os anos, casos como o das bombas no Riocentro, Sivam, compra de votos, Eduardo Jorge etc. perdem seu aspecto mais inconveniente, que é a atualidade. Podem ser investigados com isenção e vagar, sem a atualidade para atrapalhar. Não se diga que os senadores reunidos para esclarecer os fatos na subcomissão não cumpriram seu dever. Cumpriram, como a comissão militar que investigou o caso Riocentro também cumpriu - dentro dos constrangimentos da sua atualidade. Se não fosse a atualidade, tudo seria esclarecido na hora.

Mas as imposições da atualidade são irresistíveis. Na época do Riocentro não convinha ao regime militar enfrentar a sua ala maluca. Fabricou-se uma explicação para as bombas que não convenceu ninguém mas evitou o embaraço maior, de um ponto de vista puramente utilitário e dane-se o ridículo. Hoje os tempos são menos radicais, mas a conveniência do momento ainda comanda a realidade, e pode mais do que as consciências. O compromisso prioritário da aliança governista era chutar o escândalo TRT, o maior de uma série, para o mais longe do Planalto possível, e este compromisso foi cumprido. Daqui a vinte anos, sem a maldita atualidade e com distanciamento acadêmico, volta-se ao assunto. Ou não.

De tudo isto sobra uma questão prática para os futuros ocupantes do Palácio do Planalto. Com tanta coisa varrida para baixo do tapete durante os anos Éfe Agá, terão um gigantesco problema de faxina. Muita sujeira, inclusive, estará solidificada com o tempo, exigindo o uso de britadeiras e mangueiras de alta pressão. Não será um espetáculo bonito.

Publicado no jornal “O Globo” de 7 de setembro de 2000.


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