No entanto, um fator predispõe alguns a correrem bem mais que os normais – a raiva, a ira. E então, os movimentos diuturnos não se projetam em tempo síncrono. Eles se sucedem num tempo assíncrono, a vida ganha o tom e a cor que não se vê no ritmo normal.
Nessa hora, mãos e pés sintonizam a mesma comunicação e ganham o reflexo uníssono que leva em frente em questão de minutos uma tresloucada pessoa irada, atenta a todo e qualquer ser andante, passando-se ao ilustre Sr. Voante. E voa sobre duas rodas.
A briga começa com o portão eletrônico, que nunca ganha em velocidade. Um rápido cálculo indica que o portão irá subir até o limite, sendo acionado rápido para descer, fechando depois que o veículo o transponha, numa brincadeira de ‘gato e rato, como uma forma de competir a precisão e sincronismo. Transpor e ganhar as ruas quietas e frias, que nem bem amanheceram, quando já é habitualmente esperada pelos empregados da construção em frente, que se esquentam buscando coragem para iniciar o trabalho já é uma brincadeira para esquentar. Então, vem a saudação por aqueles que, igualmente acabaram de amanhecer cedo demais para o trabalho, tarde demais para viver... E que costumam assistir solenemente a mais um dia de briga com o portão eletrônico. E só faltam fazer tremular uma bandeira xadrez como sinal de vitória.
E como a raiva vai junto, a adrenalina vai de graça e por via de conseqüência, os dedos pedem a aceleração, já que as ruas estão quietas, já que os que podem ainda dormem, já que o frio tem que ser domesticado, e já que a vida tem que ser cronometrada; ganhemos então do tempo...
E todo dia é a mesma briga. Em sendo constante, vai se aperfeiçoando, melhorando a "poli-position", que todo dia é definida ao sair e ao chegar. Falta apenas um aparelhinho que medisse a intensidade dessa raiva, que move toda essa competição, que atribui todo o colorido que, de outra forma, induziria esse momento a ser apenas um momento pacato de se sair para o trabalho, distraidamente, calmamente, observando a paisagem, como fazem todos os outros, que olham o céu, lançam previsões sobre a meteorologia, não se preocupam tanto com o tempo e nem têm tamanha pressa de chegar e de viver.
Talvez a vida lhes seja boa, farta, completa; quem sabe seus dias lhe sejam suficientes para fazer tudo quanto desejam, ou ainda, talvez eles possuam tanto quanto todos os demais normais, seus hormônios em constante equilíbrio, bem distribuídos, os fazendo "zen" por natureza, ou opção – que curiosa acepção! Quem sabe suas interrogações acerca de Deus não os intriguem, não os afetem; quem sabe não descobriram a resposta que justifique toda a desigualdade reinante, ou até, quem sabe suas seitas, seus credos os aliviem o espírito, fazendo-os circular assim tão pacíficos, sem se darem conta do que acontece ali na periferia nem tão longe assim.
E então, sem raiva, sem deixarem a mesa do café-da-manhã sem mexer por não terem vontade algum de comer, por não serem comovidos e nem atingidos diretamente pela injustiça, eles não se movem obedecendo a adrenalina exposta pela raiva, que assola alguns, que nem sabem ao certo como evitá-las. E então correm, correm e correm... D’accord?