Em meio às feras, por Paul Krugman
Para aqueles entre nós que acham que a nação tomou um caminho desastroso nos últimos dois anos, a eleição de terça-feira mudou tudo e nada. Ficou claro que teremos uma estada no mundo político selvagem. Até mesmo criticar as políticas do governo Bush se tornará bem mais difícil. Será inclusive mais difícil descobrir seus objetivos: a administração mais envolta em segredo na História do país agora será ainda menos informativa. E qualquer um que critique o governo, mesmo sobre problemas domésticos, será acusado de falta de patriotismo.

O que não mudou é o erro fundamental na direção desta administração. Muitos acham que um partido que vence uma batalha deve estar fazendo algo certo. Não necessariamente. Vitória política não torna necessariamente boas as más políticas e não transforma em verdade uma mentira. Mas o que fazer então?

Alguns de meus amigos estão desesperados. Eles temem que quando o pêndulo político finalmente pender para o outro lado, o estrago já será irreparável. Um déficit federal em espiral crescente, dizem, tornará impossível atender às necessidades de uma população cada vez mais velha. Anos de capitalismo de comparsas terão destruído a fé nos nossos mercados financeiros. A política externa unilateralista nos deixará sem reais aliados. E, mais importante de tudo, a negligência com o meio ambiente terá passado do ponto de retorno.

Eles podem estar certos, mas temos de nos comportar como se não estivessem, e tentar fazer uma reviravolta na política americana. Não será fácil. Não sobraram moderados no Partido Republicano, de modo que a mudança terá de vir dos democratas. E eles estão num buraco profundo.

Não é só o 11 de setembro. Os republicanos têm uma enorme vantagem estrutural, podendo gastar muito mais dinheiro para passar sua mensagem adiante. Mas é assim que funciona a coisa. Os democratas deveriam reclamar alto do favorecimento dos republicanos pela mídia tanto quanto os republicanos reclamam da inteiramente mítica inclinação liberal dela. Isso os ajudará a passar adiante sua mensagem. Mas primeiro eles terão de ter uma mensagem.

Desde as eleições de 2000 e especialmente após o 11 de setembro, boa parte da liderança democrática tem sustentado que é preciso jogar do lado seguro — nada de críticas fortes ao governo Bush, nada de propor algo drástico que possa ofender as corporações e os ricos. O que devíamos ter percebido — e que a eleição de terça-feira confirma — é que isso é exatamente o que interessa aos republicanos.

Para ter chance de romper a barreira da mídia e dos fatores de distração, os democratas têm de atrair a atenção do público — o que significa que devem defender algo. Sobretudo, eles deveriam ser os defensores dos americanos comuns contra o poder de nossa plutocracia. Se fizerem isso, podem até perder. Mas se não se postarem pela defesa de nada, eles — e o país — certamente perderão.

Paul Krugman é colunista do New York Times

Fonte: O Globo


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