Sobre o pensamento único, por Renato Kress
"Em minha civilização aquele que for diferente de mim não me empobrecerá, ele me enriquecerá" – Saint Exupery

    Tão preocupada em bradar seus avanços tecnológicos e as suas potencialidades científicas, bélicas e microeletrônicas, a humanidade ignora seus avanços morais e ideológicos.
    Não quero me limitar a discorrer academicamente sobre a pseudo-democracia  grega e seu pálido reflexo avesso na sociedade neoliberal contemporânea. Já existem acadêmicos demais tentando reescrever as mesmas teses usadas pelas suas bancas avaliadoras. Isso deve ter começado com Platão colando de Sócrates e virou moda...
    Melhor falarmos do maniqueísmo. Tão abolido por filósofos, pensadores, psicólogos e sociólogos e, ainda assim, tão querido ao gosto popular. Êta mundinho empacado. Hermann Hesse em seu clássico "Demian" discorre como poucos sobre um lugar comum muito ignorado hoje em dia, com seu "Abraxas" lembra ao ser humano que não existem apenas tons de "preto" ou "branco", mas também há o cinza. Permanecendo na mesma corda bamba em que Nietzsche, sendo que esse último dava suas escapulidas e conseguia entrever cores, inclusive o vermelho.
    Fica difícil comparar o que é pior: se os pensadores ignorados ou se os mal interpretados. Interpretações limitadas de certos autores durante a história geraram atrasos gravíssimos à sociedade. Acreditar que a influência do evolucionismo nos textos nietzschianos fosse uma profetização do nazismo ou que Maquiavel haja contribuído para a manutenção do maniqueísmo são alguns exemplos. A esse ponto, o italiano deve estar se revirando no túmulo com toda a sua virtu, tão malvisto é pelos "entendidos" atuais que nos cospem sua ideologias e opiniões mastigadas, como o Jabor.
    Durkheim, Hegel e Weber se encontram quando da interação entre opostos (tese x antítese) conseguem vislumbrar o desenvolvimento dos códigos morais que delinearão a ética donde emergirão as leis e a jurisprudência que estruturarão a sociedade (síntese). Na formação dessa sociedade é conveniente que esqueçamos que ela obedeceu a preceitos iluministas, mais precisamente os defendidos por John Locke, que poderíamos denominar como consenso-cultural, um consenso sobre a moral, a ética, a jurisprudência de um povo gerado a partir de sua cultura.
    Depois de todos esses avanços, não é plausível que se analisem questões como a do Afeganistão de maneira tão maniqueísta, seja tendendo para o lado que for. Bush é tão genocida, reacionário e insano quanto Laden, ambos são "fundamentalistas", só mudam as ópticas de suas ortodoxias.
    Me entristece ver essa juventude pseudo-sábia, tanto a ala alienada "Global" que reza "Alá, meu bom Alá" a Roberto Marinho quanto a ala alienada "Anti-Global" que vê em Laden o Guevara do século XXI.
    Certa vez, um verdadeiro mártir disse algo sobre o povo indiano massacrado por uma nação imperialista: "Olho por olho, o mundo acabará cego", e a Índia foi libertada. Preciso falar mais?

Renato Kress


Consciência.Net