Tango assim nunca vimos
O sociólogo Cândido Grzybowski, diretor do Ibase, chama a atenção para o erro de tentar dissociar a situação argentina da brasileira. Segundo ele, dizer que nosso regime de câmbio é diferente é pouco para nos livrar do desastre. Os limites e imposições do exterior são os mesmos. Nossa elite dirigente parece que optou pelo que FHC teorizou décadas atrás: ser dependente. "Em ano eleitoral vale a pena mergulhar no diagnóstico mais profundo de nossa própria estratégia e revê-la enquanto é tempo."
Espelho para o Brasil

Cândido Grzybowski*

    A explosiva crise na Argentina parece uma tragédia anunciada. Agora, plenamente instalada, apresenta novos e surpreendentes desfechos a cada dia. Só nos falta saber até quando, com quanto sofrimento humano e o que sobrará. Tango assim nunca vimos.
    Bem adequado aos tempos de fundamentalismos, especialmente do mercado, domina um olhar economicista e reducionista da crise argentina em nosso meio. Pior, há todo um esforço de dissociar a Argentina da situação no Brasil e de não mostrar a nossa própria vulnerabilidade – um trágico samba em gestação? – como se não tivesse muito dos mesmos ingredientes.
    Certo, somos bastante diferentes em termos de sociedade, história e de base econômica. Mas de nada ajuda tapar o sol com a peneira. Em ano eleitoral vale a pena mergulhar no diagnóstico mais profundo de nossa própria estratégia e revê-la enquanto é tempo. O caso argentino vale pelas lições que nos pode dar.
    A primeira é que estamos diante de uma crise da economia enquanto tal e não meramente de uma crise econômica. Explico-me: a Argentina não está somente diante dos impasses decorrentes do regime de conversibilidade do peso para o dólar. Esse, sem dúvida, é um grande problema que precisa ser enfrentado. A grande questão é o conjunto da política macroeconômica em que se insere o regime de câmbio.
    Está doente e em crise a economia como concepção, estratégia e modelo de desenvolvimento (modo de produção, relações sociais entre os sujeitos e os setores, modo de regulação etc). Parece balela, mas a Argentina é um exemplo prático acabado do que significa ir às últimas conseqüências na implementação das políticas do chamado Consenso de Washington. Não é demais dizer: trata-se de um neoliberalismo extremado em ação.
    Gerou-se um divórcio entre economia e sociedade na Argentina. Do ponto de vista humano, do bem estar das cidadãs e cidadãos, a economia não serve. Afinal, é pedir demais que a economia antes de tudo cumpra com a sua primeira e fundamental função que é garantir as condições materiais de vida para todos? No divórcio, só com regime autoritário – e todos conhecemos isso – para dizer que errada está a sociedade e não a economia.
    A ainda frágil democracia na América do Sul e na própria Argentina serve para mostrar de modo cabal que errada está a economia e que a sociedade está disposta a tudo para mudá-la. Os sinais do desencontro e da ruptura, que tornam a coisa insustentável, vêm nos índices de emprego na Argentina (há muito tempo na faixa acima de 15%), na perda de renda monetária de amplos setores da população (em particular estratos médios) e na deteriorização e praticamente colapso no fornecimento de bens e serviços públicos. Tudo isso não será transformado simplesmente mudando o regime de câmbio. O país precisa de outro rumo.
    Como segunda lição, estamos diante de uma crise que é plenamente argentina, no sentido de que é uma síntese histórica de causas externas e internas. Mas não reconhecer a adversidade externa é não situar a Argentina no mundo. A crise tem a ver com o receituário proposto e imposto através de sucessivos acordos com FMI, mas que se estende ao Banco Mundial e à OMC, junto com a estratégica de domínio global das grandes corporações, o protecionismo dos países desenvolvidos e a prática predatória do capital financeiro especulativo, que transformou o mundo em um grande cassino.
    O sentido da globalização para nossos países – a Argentina é a demonstração prática – é a transferência de poder de fazer política macroeconômica do nacional para organizações e atores, nada transparentes, do plano global. Mas é aí que se situa outro componente essencial da crise: as decisões internas, da elite política e empresarial argentina.
    Sem o conluio interno, sem o entreguismo e a submissão como estratégia de inclusão da Argentina na tal globalização, as coisas não teriam chegado ao ponto que chegaram. Se assim não fosse, todos os países e não só a Argentina estariam neste momento em profunda crise.
    Sem dúvida, no Grande Sul, todas as nações vêm sofrendo, com exceção da China, mas aí é outra história. Mesmo o bom desempenho do México integrado via Nafta não esconde o aumento de sua vulnerabilidade externa. Na Argentina, em particular, a elite dirigente tudo fez para desfocar a economia, desregulá-la, flexibilizá-la, liberá-la e torná-la mais atrativa ao apetite externo. O resultado está aí. Não vê quem não quer.
    O terceiro elemento da crise argentina é, ao mesmo tempo, de onde pode brotar a solução. Trata-se da questão do poder e da dimensão política propriamente dita. A crise virou este tango trágico, cuja evolução como dança vemos no dia a dia, quando a população disse basta. O legítimo protesto da população, que em multidões fantásticas e armadas de panelas foi às ruas, era o que faltava. Sem dúvida, nessas horas a legalidade fica por um fio, mas volta-se à essência mesma da democracia: cidadãs e cidadãos, assumindo o seu papel constituinte do poder e, através dele, da economia que querem.
    De la Rúa caiu e vários depois dele. Será que Duhalde emplaca? Respeitar a vontade popular, agir segundo as maiorias, mas respeitando as minorias, é uma regra elementar das democracias. Na Argentina parecia que estavam esquecendo disso, ao menos os governantes. Cavallo, o superministro da economia, foi derrotado nas urnas. Duhalde, o atual presidente, também.
    A Argentina precisa caminhar rapidamente para uma aferição geral da vontade coletiva sem a qual a crise vai continuar. Esse é o processo mais doloroso e mais difícil a seguir. Talvez Duhalde prove grandeza, levando o país a isto tudo ao administrar a crise. Mas saída mesmo, solução para valer, só aceitando o que a população manifesta difusamente: um reencontro do país consigo mesmo, sendo mais soberano nas relações com o mundo, criando bases para que a economia sirva aos próprios argentinos, gerando pleno emprego e renda estável para todos e todas.
    Vale a pena tomar a Argentina como um espelho para nós. Onde está a nossa diferença conjuntural? Também temos uma economia que caminha para um divórcio profundo com a sociedade brasileira, com as necessidades e demandas de amplos setores da cidadania. Só não temos a tradição de luta dos argentinos, ao menos não temos ainda uma sociedade civil tão organizada e capaz. Dizer que nosso regime de câmbio é diferente é pouco, muito pouco, para nos livrar do desastre. Os limites e imposições do exterior são os mesmos. Nossa elite dirigente parece que optou pelo que nosso presidente FHC teorizou décadas atrás: ser dependente.
    Na verdade, em termos de política macroeconômica, praticamos um liberalismo submisso a deixar satisfeitos os teóricos do Consenso de Washington e o estabilshment da (des)ordem global. Não temos a irrupção das ruas como protesto de cidadania contra tudo isso. Aí está uma grande diferença. E temos uma chance histórica: caminhamos para uma ampla e geral aferição pelo voto da vontade popular. Ainda temos tempo e muitas possibilidades para evitar uma tragédia.

*Sociólogo, diretor do Ibase

Fonte: http://www.ibase.org.br/index.html


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