Cândido Grzybowski*
A explosiva crise na Argentina
parece uma tragédia anunciada. Agora, plenamente instalada, apresenta
novos e surpreendentes desfechos a cada dia. Só nos falta saber
até quando, com quanto sofrimento humano e o que sobrará.
Tango assim nunca vimos.
Bem adequado aos tempos
de fundamentalismos, especialmente do mercado, domina um olhar economicista
e reducionista da crise argentina em nosso meio. Pior, há todo um
esforço de dissociar a Argentina da situação no Brasil
e de não mostrar a nossa própria vulnerabilidade – um trágico
samba em gestação? – como se não tivesse muito dos
mesmos ingredientes.
Certo, somos bastante
diferentes em termos de sociedade, história e de base econômica.
Mas de nada ajuda tapar o sol com a peneira. Em ano eleitoral vale a pena
mergulhar no diagnóstico mais profundo de nossa própria estratégia
e revê-la enquanto é tempo. O caso argentino vale pelas lições
que nos pode dar.
A primeira é que
estamos diante de uma crise da economia enquanto tal e não meramente
de uma crise econômica. Explico-me: a Argentina não está
somente diante dos impasses decorrentes do regime de conversibilidade do
peso para o dólar. Esse, sem dúvida, é um grande problema
que precisa ser enfrentado. A grande questão é o conjunto
da política macroeconômica em que se insere o regime de câmbio.
Está doente e em
crise a economia como concepção, estratégia e modelo
de desenvolvimento (modo de produção, relações
sociais entre os sujeitos e os setores, modo de regulação
etc). Parece balela, mas a Argentina é um exemplo prático
acabado do que significa ir às últimas conseqüências
na implementação das políticas do chamado Consenso
de Washington. Não é demais dizer: trata-se de um neoliberalismo
extremado em ação.
Gerou-se um divórcio
entre economia e sociedade na Argentina. Do ponto de vista humano, do bem
estar das cidadãs e cidadãos, a economia não serve.
Afinal, é pedir demais que a economia antes de tudo cumpra com a
sua primeira e fundamental função que é garantir as
condições materiais de vida para todos? No divórcio,
só com regime autoritário – e todos conhecemos isso – para
dizer que errada está a sociedade e não a economia.
A ainda frágil
democracia na América do Sul e na própria Argentina serve
para mostrar de modo cabal que errada está a economia e que a sociedade
está disposta a tudo para mudá-la. Os sinais do desencontro
e da ruptura, que tornam a coisa insustentável, vêm nos índices
de emprego na Argentina (há muito tempo na faixa acima de 15%),
na perda de renda monetária de amplos setores da população
(em particular estratos médios) e na deteriorização
e praticamente colapso no fornecimento de bens e serviços públicos.
Tudo isso não será transformado simplesmente mudando o regime
de câmbio. O país precisa de outro rumo.
Como segunda lição,
estamos diante de uma crise que é plenamente argentina, no sentido
de que é uma síntese histórica de causas externas
e internas. Mas não reconhecer a adversidade externa é não
situar a Argentina no mundo. A crise tem a ver com o receituário
proposto e imposto através de sucessivos acordos com FMI, mas que
se estende ao Banco Mundial e à OMC, junto com a estratégica
de domínio global das grandes corporações, o protecionismo
dos países desenvolvidos e a prática predatória do
capital financeiro especulativo, que transformou o mundo em um grande cassino.
O sentido da globalização
para nossos países – a Argentina é a demonstração
prática – é a transferência de poder de fazer política
macroeconômica do nacional para organizações e atores,
nada transparentes, do plano global. Mas é aí que se situa
outro componente essencial da crise: as decisões internas, da elite
política e empresarial argentina.
Sem o conluio interno,
sem o entreguismo e a submissão como estratégia de inclusão
da Argentina na tal globalização, as coisas não teriam
chegado ao ponto que chegaram. Se assim não fosse, todos os países
e não só a Argentina estariam neste momento em profunda crise.
Sem dúvida, no
Grande Sul, todas as nações vêm sofrendo, com exceção
da China, mas aí é outra história. Mesmo o bom desempenho
do México integrado via Nafta não esconde o aumento de sua
vulnerabilidade externa. Na Argentina, em particular, a elite dirigente
tudo fez para desfocar a economia, desregulá-la, flexibilizá-la,
liberá-la e torná-la mais atrativa ao apetite externo. O
resultado está aí. Não vê quem não quer.
O terceiro elemento da
crise argentina é, ao mesmo tempo, de onde pode brotar a solução.
Trata-se da questão do poder e da dimensão política
propriamente dita. A crise virou este tango trágico, cuja evolução
como dança vemos no dia a dia, quando a população
disse basta. O legítimo protesto da população, que
em multidões fantásticas e armadas de panelas foi às
ruas, era o que faltava. Sem dúvida, nessas horas a legalidade fica
por um fio, mas volta-se à essência mesma da democracia: cidadãs
e cidadãos, assumindo o seu papel constituinte do poder e, através
dele, da economia que querem.
De la Rúa caiu
e vários depois dele. Será que Duhalde emplaca? Respeitar
a vontade popular, agir segundo as maiorias, mas respeitando as minorias,
é uma regra elementar das democracias. Na Argentina parecia que
estavam esquecendo disso, ao menos os governantes. Cavallo, o superministro
da economia, foi derrotado nas urnas. Duhalde, o atual presidente, também.
A Argentina precisa caminhar
rapidamente para uma aferição geral da vontade coletiva sem
a qual a crise vai continuar. Esse é o processo mais doloroso e
mais difícil a seguir. Talvez Duhalde prove grandeza, levando o
país a isto tudo ao administrar a crise. Mas saída mesmo,
solução para valer, só aceitando o que a população
manifesta difusamente: um reencontro do país consigo mesmo, sendo
mais soberano nas relações com o mundo, criando bases para
que a economia sirva aos próprios argentinos, gerando pleno emprego
e renda estável para todos e todas.
Vale a pena tomar a Argentina
como um espelho para nós. Onde está a nossa diferença
conjuntural? Também temos uma economia que caminha para um divórcio
profundo com a sociedade brasileira, com as necessidades e demandas de
amplos setores da cidadania. Só não temos a tradição
de luta dos argentinos, ao menos não temos ainda uma sociedade civil
tão organizada e capaz. Dizer que nosso regime de câmbio é
diferente é pouco, muito pouco, para nos livrar do desastre. Os
limites e imposições do exterior são os mesmos. Nossa
elite dirigente parece que optou pelo que nosso presidente FHC teorizou
décadas atrás: ser dependente.
Na verdade, em termos
de política macroeconômica, praticamos um liberalismo submisso
a deixar satisfeitos os teóricos do Consenso de Washington e o estabilshment
da (des)ordem global. Não temos a irrupção das ruas
como protesto de cidadania contra tudo isso. Aí está uma
grande diferença. E temos uma chance histórica: caminhamos
para uma ampla e geral aferição pelo voto da vontade popular.
Ainda temos tempo e muitas possibilidades para evitar uma tragédia.
*Sociólogo, diretor do Ibase