Justiçar
é impossível perdoar, por Viktor Gordeev
Certa vez, em uma aula de gramática
russa, em meus tempos de escola, a professora, explicando-nos as regras
da pontuação, sugeriu que colocássemos a vírgula
na frase “justiçar é impossível perdoar”. Aparentemente,
o Presidente Vladimir Putin está a enfrentar hoje o mesmo problema.
Nos finais de dezembro
passado, nos arredores de Moscou, ocorreu um homicídio duplo. Os
assaltantes mataram um jovem de nome Aleksandr Panakov, de 19 anos, e sua
noiva, Maria Dobrenkova, de 21 anos. Omitindo os pormenores da história,
digo apenas que o homicídio foi cometido de forma especialmente
cruel. O crime causou ampla repercussão na sociedade porque Aleksandr
era neto do presidente do Conselho de Diretores de uma das maiores empresas
petrolíferas russas, “Lukoil”, e Maria, filha do diretor da faculdade
de sociologia da Universidade Lomonossov, de Moscou.
Os autores do crime
foram identificados, localizados e detidos em um prazo extremamente curto.
São cinco jovens, de cerca de 20 anos de idade, todos eles moscovitas
e todos são alcoólicos e narcodependentes. O objetivo do
crime foi o carro das vítimas, um jipe “Lexus”, que custa em Moscou
cerca de 60 mil dólares e que os assaltantes quiseram revender,
tão logo que fosse possível, por 15 mil dólares.
Na semana retrasada,
o pai de Maria publicou uma carta aberta dirigida ao Presidente Putin,
exigindo o cancelamento da moratória à pena de morte vigente
na Rússia. Sua iniciativa foi apoiada por outros 50 cientistas,
entre os quais os reitores de várias universidades russas. Segundo
a imprensa, o Presidente leu a carta…
A pena de morte conheceu
várias moratórias na história da Rússia, inclusive
durante o governo dos bolcheviques. Em 1996, foi imposta mais uma: o Kremlin,
naquela época sob Ieltsin, preocupado com sua imagem junto aos defensores
dos direitos humanos ocidentais, se estava preparando para aderir ao Sexto
Protocolo da Convenção Européia sobre os Direitos
Humanos do Conselho da Europa. O Conselho da Europa, entretanto, não
se contentou com a moratória e exigiu da Rússia a abolição
total da pena de morte. Mas isso não aconteceu: 60% dos russos se
pronunciaram “contra” e apenas 10% aplaudiriam a moratória. De fato,
as execuções deixaram de ser praticadas logo após
a adoção, em 1997, de um Código Penal revisto. Assim,
o terrorista Salman Raduev, que comandou uma incursão armada à
vila de Budionovsk onde morreram 44 pessoas, foi condenado à prisão
perpétua e espera beneficiar, um dia, do indulto ou da comutação
da pena.
Os opositores da abolição
da pena de morte apontam, com razão, que nos últimos anos,
a taxa de homicídios tem crescido e tem sido grande o percentual
de homicídios de forma especialmente cruel, sobretudo entre os jovens.
A RIA “Novosti” divulgou, há dias, uma notícia de que um
adolescente de 14 anos matara à facada um companheiro seu com quem
estava em conflito. Só no ano passado, foram registrados na Rússia
cerca de 30 mil homicídios, ou seja, quase 10 mil acima da taxa
média anual de homicídios na antiga URSS.
O Governo russo tem
de fazer uma escolha difícil. A carta de Dobrenkov encontrou amplo
eco na sociedade e apoio da maioria da população e da imprensa.
O Kremlin poderia, certamente, “silenciar o caso”, transformá-lo
em processo comum. Mas, nesse caso, correria o risco de prejudicar a imagem,
tão longamente cultivada, de Putin como Presidente “sempre atento
para com os anseios do povo”, o que seria indesejável face às
próximas eleições presidenciais e parlamentares.
Enquanto isso, em uma
cidade do Distrito de Stupino, na Região de Moscou, mora um tal
Vassili Andreevitch, cuidando de animais domésticos, trabalhando
em sua horta e fazendo provisões para o inverno, e parece estar
contente com a vida. E ninguém, nem seus vizinhos nem familiares,
imaginam que, durante vinte e cinco anos, Vassili Andreevitch trabalhou
no Ministério do Interior, executando sentenças de morte.
Mais de 50 vezes ele
puxou o gatilho e sempre com a consciência tranqüila. Segundo
conta ele próprio, aquele que era designado para executar a sentença
de morte pedia sempre para ver o dossier do condenado para, antes de proceder
à execução, poder decidir, ele mesmo, sobre disparar
ou não. “Se o executor da sentença abria mão, a chefia
não o condenava e chamava um outro atirador” – diz Vassili Andreevitch.
Há cinco anos,
Vassili Andreevitch pediu a demissão. “A prática de execução
de sentenças de morte não existe mais. A sociedade não
precisa mais de meu trabalho” – escreveu Vassili Andreevitch em seu pedido
de demissão. Primeiro, ele se sentia magoado por ter perdido o emprego.
“Por menos prestigioso que fosse meu trabalho, ele me permitia ganhar a
vida” – diz Vassili Andreevitch. Com o tempo, chegou a entender que, ao
ter largado o trabalho, adquiriu algo de melhor: tem hoje uma casa própria,
recebe uma pensão e vive daquilo que cultiva em sua horta. Não
carece de dinheiro e não lastima de sua vida, sabe fazer todo o
trabalho de casa, à exceção de abater um porco ou
um frango. Sempre pede ao filho para fazê-lo. “Pai, é excessivamente
piedoso” – diz o filho sempre que vai abater um frango.
Fonte: RIA “Novosti”
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