Saudades do anarquista Glauber, por Paulo Ramos Derengoski
  Estranho país, o nosso que se dá ao luxo de deixar morrer, solitário e esquecido, um intelectual do porte de Glauber Rocha, do qual pelo menos um filme (Deus e o Diabo na Terra do Sol) está na lista dos dez maiores de todos os tempos, segundo pesquisa internacional da revista francesa Cahiers du Cinema.

  Como a maioria dos intelectuais brasileiros, Glauber morreu pobre e endividado. Seus últimos dias foram num hospital da luxuosa vila de Sintra, de quem Eça de Queirois já dizia que não há um só recanto que não seja um poema - cidade favorita dos mouros, que a ocupavam durante séculos. Já os gregos, que sabiam o que era belo, chamavam-na Cíntia (Monte da Lua), cenário dos alucinantes amores de Diana.
  Mas o que teria levado Glauber até Sintra? Teria sido o castelo sob o qual está enterrado o Tesouro dos Templários? O que leva os leões a se internarem nos desertos? O que leva os leopardos a subir até os abismos das crateras de Kilimanjaro?
  Ninguém mais saberá.
  Mas o fato é que, se neste país ele plantou a semente de uma poderosa cultura cinematográfica e influenciou toda uma geração, colheu apenas frutos dourados do ódio. E agora já se transformou em adubo da terra que ele tanto amava. Do Brasil só lhe restaram o nome de um teatro na sua Bahia, uma placa no Festival de Gramado e uma sepultura medida: a propriedade cultural que não lhe deram em vida.
  No seu maior filme, Deus e o Diabo na Terra do Sol, ele tentou dizer que a terra não era de um nem de outro, mas do homem, que nela trabalha. E mais uma vez se enganou, porque, ao fim e ao cabo, a única terra que resta ao homem é a cova rasa que servirá de sepultura. A enorme ameba cultural que é o Brasil, esse vasto continente sem esqueleto - por isso mesmo inquebrável - prefere, talvez com razão, os heróis sem caráter, os Macunaímas, os Pedro Malasartes, os Jeca Tatus, os Leopardos Patacas, os Vitorinos Papa-Rabos, os Deolitos Venta-Grandes, as Capitus, as Chica da Silva, os Negros da Venta Furada.....
  Convençamo-nos de que aqui não há mais lugar para os pescadores de Barravento, para os cangaceiros de Deus e o Diabo, para os guerrilheiros de Terra em Transe e para os idealistas de Idade da Terra.
  Pobre Glauber: morreu vendo a agonia da ciência que fala da luta entre os homens: a arte da política. Foi atacado pela esquerda festiva e pela direita manifestiva, mas conseguiu o milagre de quebrar - através do paroxismo oral – os esquemas de visualização de nosso cinema.
  No fundo, o drama de Glauber Rocha, o drama de todo intelectual brasileiro, é que somos autores de uma antiepopéia cujo início (ou fim) é a confirmação de um fim (ou início) começado há muito tempo: vivemos a dialética da morte.
  Nossa geração viveu um tempo de espasmos e derrotas. E nele se desfez. E se custou a aprender que nestes tristes trópicos a intensa movimentação leva a um só lugar, à autodestruição.
  Ousado e impetuoso, nos seus últimos filmes, Cabezas Cortadas ou Leão de Sete Cabeças - ele desfez provocações sobre a política, rompendo com o esquema de uma América Latina ajustada ao pensamento racionalista europeu.
  Seguindo a trilha de um Alejo Carpentier e um Jorge Luís Borges, ele via o continente sob uma configuração telúrica maravilhosa - e pôs fim a um modo de firmá-lo. Seus personagens sempre foram reais e irreais, fracos e fortes, vítimas e autores da história, buscando inutilmente o descanso numa região sempre à beira do fantástico- e do autoritarismo.
  Não importa que seus filmes tenham-se perdido na indisciplina e uma beleza vaga, plástica e sensual. A Idade da Terra, por exemplo, é uma sinfonia cinematográfica que talvez só venha a ser avaliada no futuro. Porque, da mesma forma que o barroco foi a negação do ideal estético renascentista, os delírios formais do filme de Glauber Rocha significam a rejeição do cinema sério: afirmação do equilíbrio no desequilíbrio: O exagero! Sim: Exagero!
  Um vasto painel revolucionário semelhante ao muralismo mexicano. Um grande afresco de excrescências monstruosas.
  É difícil escrever sobre Glauber nos dias de hoje, pois os comissários de bonezinho de couro e as milicianas xexelentas de maxissaia só gostam de ouvir verdades desagradáveis, contadas de maneira agradável. Este é um país onde todo mundo tá virando " humorista" ....
  Os filmes de Glauber não têm humor nem choram de piedade, nem apontam soluções. Anarquista legítimo, ele manipulou sempre a contradição viva, a música louca, o gesto desesperado....

Paulo Ramos Derengoski é jornalista

Fonte: Revista Caros Amigos


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