Quem tem medo
do FMI?, por Adriano Benayon
Quem tem medo do FMI,
do Banco Mundial e das demais instâncias da “comunidade financeira
internacional”, esse eufemismo usado para designar a oligarquia transnacional?
O partido dito dos trabalhadores, PT, certamente tem. Haja vista o recente
debate sobre o programa partidário e as entrevistas de, entre outros,
Aloísio Mercadante.
Em todos
os países, as condições sociais e econômicas
têm melhorado tanto mais, quanto menos eles acatam as receitas do
FMI/Banco Mundial. China e Índia são casos de melhoras substanciais.
A própria Rússia, depois de deixar-se triturar pela política
econômica da globalização, começa a recuperar
algo, distanciando-se dela. Decidiu suspender pagamentos da dívida
externa, sem que nada de mau acontecesse. A oligarquia globalizante tem
sido desobedecida até mesmo por países menores e não
dotados de mísseis nem bombas nucleares, como Malásia, Quênia,
e Zimbabwe.
Na América
Latina, porém, os povos, embora prontos a reagir, assistem, com
desânimo, aos preparativos de seu próprio funeral, como vem
ocorrendo na Argentina, muito evidentemente, e também no Brasil.
Vê-se claramente o nexo causal entre o crescimento da submissão
política ao estrangeiro e a conseqüente deterioração
sócio-econômica. Confortável com o sistema de poder
governado pela oligarquia estrangeira, o PT apresenta-se, perante ela,
comportado, como um postulante a emprego em empresa multinacional, ansioso
em mostrar que tudo fará para servir àquele sistema. Para
o PT, as dívidas externa e interna são “administráveis”,
os contratos têm de ser cumpridos, os impostos em cascata devem ser
mantidos, a privatização em si não é de questionar.
Em relação a esta, o PT propõe apenas mudanças
em critérios, portanto adjetivas.
A única
recomendação pretensamente contrária à política
de FHC/Malan – leia-se do FMI – é atenuar a proibição
aos investimentos das empresas estatais, o que, entretanto, não
tem qualquer chance de se tornar realidade, enquanto perdure o modelo dependente.
Continuando as transferências das transnacionais ao exterior, os
sobrepreços nos bens importados e nas despesas das subsidiárias
das transnacionais no exterior, e continuando a crescer as dívidas
e seus juros, as estatais são cada vez mais chamadas a contribuir
para o aumento do superavit nominal do orçamento, mantendo recursos
financeiros ociosos. O superavit nominal compensa só em parte o
déficit decorrente dos juros e das demais despesas de interesse
da oligarquia concentradora. Ora, como esse déficit não cessa
de crescer, aquele superavit tem de aumentar, por exigência do FMI.
E isso, não para equilibrar o orçamento, mas para que
o desequilíbrio causado pelas despesas financeiras não atinja
logo o nível da bancarrota total.
Para que
esta seja adiada – e ela não seria tão grave assim, pois
é só financeira – o que se faz sempre é cortar na
carne do País: restringir cada vez mais sua capacidade produtiva,
transferir cada vez mais patrimônio para empresas da oligarquia concentradora.
Os investimentos das estatais sempre geraram produção e patrimônio
para o Brasil. A supressão deles não foi decretada por acaso,
mas pela lógica do sistema dependente. São, pois, ilusórias
as alternativas sugeridas por economistas, da “oposição”
ou não, para atenuar aspectos odiosos desse sistema. De fato, aceito
o modelo, todas as “alternativas” acarretam mais prejuízos do que
benefícios. O exercício, além de estéril, é
masoquista. A entropia a que conduz o sistema faz aumentar, além
do déficit interno, também o externo (transações
correntes com o exterior). Este leva a incentivar a entrada de capital
estrangeiro, tanto os empréstimos do FMI, Banco Mundial etc., que
impõem as condicionalidades, subordinando totalmente a política
econômica, como os investimentos diretos. Estes são alavancas
de saídas de recursos do País. Ou seja, quanto mais capital
estrangeiro entrar, mais o País se descapitaliza e mais acentua
sua dependência. E assim, ad infinitum.
Leio agora
uma quilométrica entrevista do Sr. Lula ao Jornal do Brasil (24.06.2001).
O sistema, é claro, dá espaço irrestrito aos que lhe
agradam. O presidente do PT continua “acreditando” em melhorar as condições
sociais do País sem tocar nas causas da deterioração
dessas condições. Lula afirma desejar o capital estrangeiro.
Refere-se uma só vez a multinacionais (transnacionais), e porque
foi perguntado. Louva-as, repetindo, como faz há mais de 20 anos,
que elas tratam os trabalhadores muito melhor (sic) do que as nacionais.
Diz, mas não prova. Omite as demissões em massa das transnacionais
e nem sonha em entender que as transferências delas ao exterior fazem,
em poucos anos, o país perder mais de 10 vezes o número de
empregos por elas aberto. Afirma, como dirigente político, julgar
que um país precisa de indústria nacional forte, competitiva.
Prefere ignorar que, com as transnacionais aqui dentro, e até subsidiadas,
a indústria nacional vem sendo dizimada pelo modelo desejado pelo
PT.
Adriano Benayon, Doutor em Economia
pela Universidade de Hamburgo, Alemanha, é autor de “Globalização
versus Desenvolvimento”.
E-mail: benayon@solar.com.br
Fonte: Expresso
Vida Nº 76
Consciência.Net