A tática da paranóia, por José Luis Fiori
O novo adversário não é uma religião, ideologia, civilização ou Estado, e pode ser redefinido a cada momento pelos próprios Estados Unidos

Um ano depois, já foi dito quase tudo sobre o 11 de setembro de 2001. Artigos e mais artigos, livros, análises rigorosas, impressões, explicações, lembranças e uma longa discussão sobre seu impacto mundial. À primeira vista, uma ruptura radical com o mundo projetado pela era Clinton, onde a utopia da globalização se completava, na década de 90, com o sonho de um mundo sem fronteiras nem guerras e de uma sociedade civil mundial, governada por uma democracia cosmopolita.

Na medida em que o tempo passa, contudo, fica cada vez mais claro que os atentados de Washington e Nova York cumpriram um papel inesperado, numa luta de poder dentro do establishment da política externa norte-americana, que já vinha sendo travada desde o fim da Guerra Fria. A verdade é que, nessa batalha, os atentados acabaram dando ganho de causa (pelo menos até agora) aos interesses e idéias consagrados pela nova doutrina Bush, uma estratégia internacional que foi desenhada pela primeira vez, em 1989, por um grupo de trabalho liderado pelo atual vice-presidente, Dick Cheney, ex-secretário de Defesa do governo no velho Bush.

Na sua primeira versão, a nova doutrina propunha, como objetivo central da política externa americana, impedir o surgimento – depois do fim da União Soviética – de qualquer nação, ou aliança de nações, que pudesse rivalizar com os Estados Unidos, que já dispunham, naquele momento, de 725 bases militares e 300 mil soldados fora do território americano.

Essas idéias foram transitoriamente engavetadas durante os governos democratas da década de 90, mas foram retomadas com a volta dos republicanos e da dupla Bush/Cheney. Os atentados e a transformação do terrorismo no novo inimigo bipolar dos Estados Unidos não alteraram o objetivo inicial da nova doutrina, mas modificaram substancialmente o seu encaminhamento estratégico.

A própria definição do inimigo foi alterada três vezes, pelo menos, depois do 11 de setembro: primeiro foram as “redes terroristas”, depois o “eixo do mal” e, finalmente, os “Estados produtores de armas de destruição em massa”, categoria que inclui – neste momento – quase todos os aliados americanos na guerra do Afeganistão.

O novo adversário não é uma religião, ideologia, nacionalidade, civilização ou Estado e pode ser redefinido a cada momento pelos próprios Estados Unidos, sendo, portanto, variável e “infinitamente elástico”.

Note-se que, por trás dessa elasticidade, o que está sendo proposto é um projeto de “contenção universal” junto com a defesa de um novo direito exclusivo dos Estados Unidos: o direito de fazer “ataques preventivos para mudança de regimes”, em países que protejam terroristas ou produzam armas em destruição de massa, ou, o que é mais insólito, em países que os Estados Unidos considerem que algum dia podem vir a produzir ou proteger armas e terroristas.

A novidade estratégica, entretanto, não pára por aí. A natureza invisível e onipresente do novo inimigo permitiu outra redefinição aparentemente mais sutil, mas absolutamente crucial. Donald Rumsfeld, atual secretário de Defesa dos Estados Unidos, sintetizou a novidade num artigo publicado no Foreign Affairs de maio/junho de 2002:

“Decidimos nos distanciar da nossa velha estratégia baseada em ameaças que dominou o nosso planejamento de defesa por meio século e adotar uma nova abordagem baseada em capacidade: uma que se preocupe menos com quem pode nos ameaçar e que seja focada em deter e nos defender de tais ameaças. Temos de examinar nossas vulnerabilidades e construir nossas forças para deter e derrotar a ameaça, e não montar nossas forças armadas para lutar contra este ou aquele país”.
O novo inimigo dos Estados Unidos, portanto, já não seria mais uma nação ou aliança de Estados territoriais, nem mesmo uma rede terrorista internacional, seriam as próprias “vulnerabilidades” dos norte-americanos. Mas quais são essas vulnerabilidades? Quem as define? Em que campo se situam?

O próprio Rumsfeld tenta esclarecer o problema ao defender, no mesmo artigo, a construção de um sistema inexpugnável contra qualquer coisa que possa ameaçar os americanos; contra “o desconhecido, o incerto, o inesperado”. Uma ameaça que pode vir do espaço e ser nuclear, mas também pode ser cibernética, biológica, química e pode estar no ar, na terra, na água, nos alimentos, enfim, em centenas de veículos ou lugares diferentes, porque é pouco provável que alguém queira rivalizar ou competir com os Estados Unidos numa guerra convencional.

Como a assimetria é enorme, os adversários só poderiam enfrentar os americanos utilizando sua própria tecnologia, de maneira inesperada. Nesse sentido, tudo pode se transformar numa arma, em particular as inovações tecnológicas dos próprios americanos. E tudo pode se transformar num alvo, em particular as coisas mais prezadas e desprotegidas dos norte-americanos.

Desse ponto de vista, Donald Rumsfeld tem razão: a arma dos inimigos será muito provavelmente de origem norte-americana e seus alvos não convencionais serão “vulnerabilidades” de toda e qualquer natureza, que os próprios americanos terão de descobrir.

É isso que explica a proposta do governo Bush de criar uma “rede cidadã” de espionagem, constituída por milhões de homens e mulheres comuns que gastariam parte de seus dias controlando e vigiando seus próprios vizinhos. E é isso que explica, também, um ponto muito estranho, do plano contra ataques terroristas, enviado ao Congresso pelo presidente George W. Bush, no mês de junho de 2002, propondo a criação de “equipes vermelhas” que planejariam ataques contra os Estados Unidos, pensando como terroristas, para descobrir os pontos fracos da segurança americana.

É como se a “escalada aos extremos” de que nos fala Von Clausewitz, na sua teoria da guerra, tivesse chegado ao limite da loucura com o desaparecimento de adversários competitivos, e os Estados Unidos estivessem se transformando em inimigos de si mesmos. Sim, porque, se as “equipes vermelhas” cumprirem seu papel com eficiência, para não desperdiçar o dinheiro do contribuinte norte-americano, elas terão por obrigação de competir e de superar a própria segurança americana.

Atenção, porque nesse caso as “equipes vermelhas” poderão descobrir novas vulnerabilidades antes da própria defesa americana, e não é impossível imaginar, pelo menos no campo da especulação, que, em nome da eficiência e do cumprimento do seu objetivo patriótico, as “equipes vermelhas” cometam o erro de atacar os próprios Estados Unidos.

José Luis Fiori


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