Um ano depois, já foi dito quase tudo sobre o 11 de setembro de 2001. Artigos e mais artigos, livros, análises rigorosas, impressões, explicações, lembranças e uma longa discussão sobre seu impacto mundial. À primeira vista, uma ruptura radical com o mundo projetado pela era Clinton, onde a utopia da globalização se completava, na década de 90, com o sonho de um mundo sem fronteiras nem guerras e de uma sociedade civil mundial, governada por uma democracia cosmopolita.
Na medida em que o tempo passa, contudo, fica cada vez mais claro que os atentados de Washington e Nova York cumpriram um papel inesperado, numa luta de poder dentro do establishment da política externa norte-americana, que já vinha sendo travada desde o fim da Guerra Fria. A verdade é que, nessa batalha, os atentados acabaram dando ganho de causa (pelo menos até agora) aos interesses e idéias consagrados pela nova doutrina Bush, uma estratégia internacional que foi desenhada pela primeira vez, em 1989, por um grupo de trabalho liderado pelo atual vice-presidente, Dick Cheney, ex-secretário de Defesa do governo no velho Bush.
Na sua primeira versão, a nova doutrina propunha, como objetivo central da política externa americana, impedir o surgimento – depois do fim da União Soviética – de qualquer nação, ou aliança de nações, que pudesse rivalizar com os Estados Unidos, que já dispunham, naquele momento, de 725 bases militares e 300 mil soldados fora do território americano.
Essas idéias foram transitoriamente engavetadas durante os governos democratas da década de 90, mas foram retomadas com a volta dos republicanos e da dupla Bush/Cheney. Os atentados e a transformação do terrorismo no novo inimigo bipolar dos Estados Unidos não alteraram o objetivo inicial da nova doutrina, mas modificaram substancialmente o seu encaminhamento estratégico.
A própria definição do inimigo foi alterada três vezes, pelo menos, depois do 11 de setembro: primeiro foram as “redes terroristas”, depois o “eixo do mal” e, finalmente, os “Estados produtores de armas de destruição em massa”, categoria que inclui – neste momento – quase todos os aliados americanos na guerra do Afeganistão.
O novo adversário não é uma religião, ideologia, nacionalidade, civilização ou Estado e pode ser redefinido a cada momento pelos próprios Estados Unidos, sendo, portanto, variável e “infinitamente elástico”.
Note-se que, por trás dessa elasticidade, o que está sendo proposto é um projeto de “contenção universal” junto com a defesa de um novo direito exclusivo dos Estados Unidos: o direito de fazer “ataques preventivos para mudança de regimes”, em países que protejam terroristas ou produzam armas em destruição de massa, ou, o que é mais insólito, em países que os Estados Unidos considerem que algum dia podem vir a produzir ou proteger armas e terroristas.
A novidade estratégica, entretanto, não pára por aí. A natureza invisível e onipresente do novo inimigo permitiu outra redefinição aparentemente mais sutil, mas absolutamente crucial. Donald Rumsfeld, atual secretário de Defesa dos Estados Unidos, sintetizou a novidade num artigo publicado no Foreign Affairs de maio/junho de 2002:
“Decidimos nos distanciar da nossa velha estratégia baseada em ameaças que dominou o nosso planejamento de defesa por meio século e adotar uma nova abordagem baseada em capacidade: uma que se preocupe menos com quem pode nos ameaçar e que seja focada em deter e nos defender de tais ameaças. Temos de examinar nossas vulnerabilidades e construir nossas forças para deter e derrotar a ameaça, e não montar nossas forças armadas para lutar contra este ou aquele país”.O novo inimigo dos Estados Unidos, portanto, já não seria mais uma nação ou aliança de Estados territoriais, nem mesmo uma rede terrorista internacional, seriam as próprias “vulnerabilidades” dos norte-americanos. Mas quais são essas vulnerabilidades? Quem as define? Em que campo se situam?
O próprio Rumsfeld tenta esclarecer o problema ao defender, no mesmo artigo, a construção de um sistema inexpugnável contra qualquer coisa que possa ameaçar os americanos; contra “o desconhecido, o incerto, o inesperado”. Uma ameaça que pode vir do espaço e ser nuclear, mas também pode ser cibernética, biológica, química e pode estar no ar, na terra, na água, nos alimentos, enfim, em centenas de veículos ou lugares diferentes, porque é pouco provável que alguém queira rivalizar ou competir com os Estados Unidos numa guerra convencional.
Como a assimetria é enorme, os adversários só poderiam enfrentar os americanos utilizando sua própria tecnologia, de maneira inesperada. Nesse sentido, tudo pode se transformar numa arma, em particular as inovações tecnológicas dos próprios americanos. E tudo pode se transformar num alvo, em particular as coisas mais prezadas e desprotegidas dos norte-americanos.
Desse ponto de vista, Donald Rumsfeld tem razão: a arma dos inimigos será muito provavelmente de origem norte-americana e seus alvos não convencionais serão “vulnerabilidades” de toda e qualquer natureza, que os próprios americanos terão de descobrir.
É isso que explica a proposta do governo Bush de criar uma “rede cidadã” de espionagem, constituída por milhões de homens e mulheres comuns que gastariam parte de seus dias controlando e vigiando seus próprios vizinhos. E é isso que explica, também, um ponto muito estranho, do plano contra ataques terroristas, enviado ao Congresso pelo presidente George W. Bush, no mês de junho de 2002, propondo a criação de “equipes vermelhas” que planejariam ataques contra os Estados Unidos, pensando como terroristas, para descobrir os pontos fracos da segurança americana.
É como se a “escalada aos extremos” de que nos fala Von Clausewitz, na sua teoria da guerra, tivesse chegado ao limite da loucura com o desaparecimento de adversários competitivos, e os Estados Unidos estivessem se transformando em inimigos de si mesmos. Sim, porque, se as “equipes vermelhas” cumprirem seu papel com eficiência, para não desperdiçar o dinheiro do contribuinte norte-americano, elas terão por obrigação de competir e de superar a própria segurança americana.
Atenção, porque nesse caso as “equipes vermelhas” poderão descobrir novas vulnerabilidades antes da própria defesa americana, e não é impossível imaginar, pelo menos no campo da especulação, que, em nome da eficiência e do cumprimento do seu objetivo patriótico, as “equipes vermelhas” cometam o erro de atacar os próprios Estados Unidos.
José Luis Fiori
Consciência.Net