Cem anos
de lutas em um dia de glória. Por quê 8 de março?,
por Maria Dolores Mota Farias
O dia 8 de março, comemorado
no mundo como Dia Internacional da Mulher, foi reconhecido oficialmente
pela UNESCO, em 1977. A ONU havia realizado em 1975 a 1a Conferência
Internacional da Mulher no México, reconhecendo o 8 de março,
quando declarou 1975-1985 a década da mulher. Nos anos de 1980,
1985 e 1995 foram organizadas, respectivamente, conferências mundiais
da mulher em Copenhague, Nairobi e Pequim. Esses acontecimentos refletem
um movimento internacional de mulheres com uma história de mais
de 100 anos de lutas e conquistas sociais contra a opressão e a
discriminação feminina. A força desse movimento está
na história e no reconhecimento do Dia Internacional da Mulher.
Os movimentos de mulheres
lembram dois fatos para contarem a origem desse dia:
“No dia 8 de março
de 1857, trabalhadoras de uma indústria têxtil de Nova York,
em greve pela diminuição da jornada de trabalho, foram trancadas
e a fábrica incendiada, provocando a morte de 129 delas.
No II Congresso Internacional
das Mulheres Socialistas, em 1910, em Copenhague, Clara Zetkin, militante
alemã, editora do jornal feminista A Igualdade, propõe essa
data como referência para todas mulheres do mundo celebrarem e comemoram
suas lutas.”
Na realidade, esses
fatos não aconteceram como são narrados. Formam, porém,
o núcleo de um mito, composto por elementos significativos e acontecimentos
que marcaram profundamente a história da constituição
do movimento internacional das mulheres em muitas partes do mundo. No final
de fevereiro de 1908, as socialistas americanas realizaram um encontro
de mulheres que foi anunciado como "dia das mulheres". Considerado um sucesso
foi se repetindo nos anos seguintes, na mesma data.
Em 1909, ocorreu a
primeira grande greve de operárias têxteis, em Nova York.
Elas, por três meses, resistiram à repressão, sendo
presas, torturadas, mas apoiadas por um comitê que mobilizou amplos
segmentos da sociedade. Esta greve é confundida com um incêndio
ocorrido em 1911, numa fábrica de roupas da Triangle Shirt Waist
Company, que matou 134 jovens operárias/os que, em pânico,
pulavam de mãos dadas do prédio de dez andares numa verdadeira
chuva de corpos. Este incêndio foi denunciado como ‘Um Crime Capitalista’.
Em 1910, depois do
Congresso em Copenhague, quando o dia da mulher nem chegou a entrar em
pauta, Clara Zetkin publicou em sua revista de 82.000 assinaturas, que
o dia 8 de março tinha sido reconhecido como dia internacional da
mulher pelo Congresso. Essa “inverdade” histórica fez com que a
data se firmasse como fato real, motivador de lutas.
Outro momento importante
nessa história feminista foi a Revolta de Petrogrado, em 23 de fevereiro
1917, data que, no calendário do ocidente, corresponde ao dia 8
de março. As mulheres russas, esgotadas pela fome e pelo sofrimento
de longos anos de guerra, pediram nas ruas pão para os filhos e
a volta dos maridos das trincheiras da guerra. Essa rebeldia feminina deu
início a uma revolta que desembocou na revolução de
outubro.
Emendando pedaços
de acontecimentos e costurando significados foi-se construindo uma história-mito
que concentra sofrimentos, lutas, resistência, vitórias e
sonhos de mulheres de várias partes do mundo. Uma história
que representa o desejo e a coragem de transformar. A necessidade e a continuidade
desta luta faz com que no dia 8 de março as mulheres se encontrem,
apareçam e se afirmem sem medo das discriminações,
sem vergonha de ser mulher. Vivem entre si uma grande solidariedade, reafirmando
positivamente o seu valor e a “força de um sujeito coletivo feminino”,
escrevendo novas páginas na construção da vida e da
sociedade.
Maria Dolores Mota Farias é doutora
em sociologia com a tese: “A mulher trabalhadora rural”. Professora na
UFCe, Fortaleza.
Fonte: http://www.adital.org.br/asp2/noticia.asp?idioma=PT¬icia=2299
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