Brincando de Esconde-esconde com a Realidade, por Renato Kress
    A frieza que percebo no assunto da moda na mídia e na boca do público e que, desculpem-me os que não me alcançarem, graças a Deus desviou a atenção do pão e circo atual, nosso Guga, é de uma apatia digna de indignação.

    Nada contra o tenista ser reconhecido por seu talento técnica e garra, mas a realidade brasileira está no Central-Gávea. No 174, a realidade se mostra, incompleta e inquietante, no desespero de um "seqüestrador" cuja família foi mais uma das milhares de vítimas do sistema excludente em que vivemos, que enfia uma arma na cabeça de uma moça e "seqüestra" um ônibus em plena Zona Sul carioca.

Situação do país

    O país está vendido (ou melhor, DOADO), a concentração de rendas é cada vez mais abismal. É óbvio, portanto, que o crescimento da violência urbana tende vertiginosamente a uma guerra civil. A polícia militar é treinada para matar, para assassinar "criminosos", leia-se "A polícia militar é treinada e utilizada para impedir que os excluídos sociais, financeiros, econômicos e institucionais se revoltem contra os ricos, empresários, administradores públicos e toda sorte de repressores e concentradores de renda e recursos".
    O Gustavo, grande aspirante a jornalista e também um dos donos do Consciência.Net não culpa o seqüestrador. Nem eu. A automação impensada, a transnacionalização das indústrias e a desnacionalização do nosso parque industrial são processos geridos pela famigerada globalização e, primando pela mesma ideologia, geram cada vez mais lucros nas mãos de um contingente populacional cada vez mais restrito. Como culpar um revoltado se não demos a ele condições mínimas e constitucionalmente obrigatórias para que ele se torne um cidadão, detentor de direitos e deveres, e não um mero citadino, habitante da cidade?

Volta a Roma. O público decide sobre vida e morte

    É muito fácil revestir-se de uma falsa moralidade superficial e, declarando-se Deus, decidir sobre vida e morte de uma ramificação de um problema de proporções mundiais. A impessoalidade e a frieza com que as emissoras de televisão tratam o caso, em sua visão elitista e isolacionista, faz com que o público (no sentido pejorativo da palavra) se sinta indignado com a atitude do seqüestrador e dos PM's.

O Caso da polícia.... era a certa?

    Não custa reforçar. Os PM's são treinados para assassinar, receberam treinamento militar, aprenderam a se virar numa guerrilha urbana, não se pode esperar deles condicionamento operacional para que cuidem ou se preocupem com civis, com reféns e transeuntes, personagens que não estão presentes para a guerra para a qual foram treinados. Esse é o papel da polícia civil, o treinamento para lidar com civis e para "assegurar a segurança dos inocentes" é dado a eles. Onde eles estavam a essa hora? Há uma rixa entre as duas polícias? Há.
    A política estadual, principalmente a tão aclamada política de SEGURANÇA do governador deveria estar a par de qual polícia seria ativada neste tipo de operação.

"Tá tudo bem.... se vai mal...." (Ed Motta)

    É claro que o público (sempre público e não povo, participativo, ativo...) está aflito com a demonstração de barbárie urbana, mas não se preocupem. Logo logo o Guga chega ao Brasil e as empresas televisivas farão AQUELA comemoração com espaço em todos os jornais para o nosso atual Pelé-Senna-Garricha, pro nosso "pão e circo" diário. Logo as empresas de ônibus pagam uma boa nota pra Globo retirar certas "coluninhetas", como diria o saudosíssimo Jésus Rocha, como a que mostra outros "incidentes" em ônibus, outros que não acontecem na Zona Sul, a mais rica, de um dos estados mais ricos do país.
    Relaxa, daqui a pouco você esquece tudo isso e volta a ver a sua televisãozinha e ler o seu jornal (pra mim aquilo é limpa-caca-de-papagaio) O Globo....
    Será?

Renato Kress


Consciência.Net