Melhor do que a encomenda, por Luis Fernando Verissimo
Esperava-se que, tendo perdido na votação popular por mais de 500 mil votos e recebido a presidência dos Estados Unidos de presente da Suprema Corte americana, numa decisão que ainda não passou pela traquéia de boa parte da população do país, George W. Bush se comportasse no poder com algum comedimento, pelo menos por um trimestre. Não foi o que aconteceu. Bush está se saindo melhor do que encomendaram os interesses que o elegeram. A indústria do petróleo, a indústria química, a indústria bélica e a direita religiosa não podem se queixar do serviço rápido e atencioso que recebem da Casa Branca desde o primeiro dia.

A indústria química, principalmente, mesmo acostumada com a alta rentabilidade dos seus negócios, não esperava um retorno tão imediato do capital investido na eleição de Bush. O relaxamento de medidas de proteção ambiental e a revisão de leis que favoreciam a responsabilização de empresas do setor em casos envolvendo a saúde pública, já enfraquecidas na administração do pseudodemocrata Clinton, estão sendo forçadas com entusiasmo por Bush, de quem nunca se dirá que é um mal-agradecido. A indústria do petróleo, da qual vieram o vice-presidente Cheney e o próprio Bush, também está sendo ajudada com o sacrifício da ecologia e da saúde, sem qualquer pudor. A franca declaração de Bush que não assinaria o tratado de Kyoto para diminuição da poluição que ameaça a vida no planeta porque salvar a vida no planeta não interessa, economicamente, aos Estados Unidos deve ser aplaudida onde quer que as pessoas acreditem que o lucro deve se sobrepor a tudo, inclusive ao bom senso.

Bush promete construir o escudo nuclear sonhado por Reagan para proteger o complexo industrial-militar americano do ataque de potências-bandidas como a Coréia do Norte. Diziam que o tal projeto "Star Wars" era uma idéia que Reagan teve jogando um videogame contra si mesmo, e perdendo, que os militares levaram a sério. Na verdade é uma idéia que nada tem de infantil para manter o Pentágono contente e a indústria de armas próspera e saudável por muitos anos, no maior exemplo de intervenção estatal na economia que os arautos da livre empresa dão ao mundo.

Reunido com Bush, Éfe Agá deve ter meditado sobre as injustiças do mundo. Ele, um presidente de Primeiro Mundo, consciente e preparado, sem qualquer poder para intervir inteligentemente nos destinos da Terra, diante daquele caipira primário comandado pela pior inconsciência do mundo – e com o poder de mandar nele.


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