Verissimo
x FHC, por Luis Fernando Verissimo
Os pedidos para que o presidente renuncie
pressupõem um grau de autocrítica que o Efe Agá não
parece ter. Não dá para imaginar o presidente fazendo a barba
de manhã e, de repente, se olhando nos olhos, interrompendo a barba
e começando um diálogo com sua imagem refletida. Daqueles
definitivos, sem rodeios ou meias palavras, podres pra fora, cartas na
mesa. Ou, no caso, na pia.
- E então, campeão?
- Pois é. Aqui.
- A coisa não está
fácil...
- Não está fácil.
- Sua popularidade, lá
embaixo.
- Nem me fale, às vezes
acho que ninguém me ama.
- Epa. E eu?
- Tem você, é
claro.
- Pois então? Já
somos dois.
- Mas o Ibope nunca nos procura.
- Cabeça erguida, rapaz.
O importante é que você sabe que está certo.
- Aí que está.
Eu não sei se estou certo. Acho que o Malan sabe que está
certo. É diferente.
- Se você está
com dúvidas, chute o Malan.
- Não posso, Washington
não deixa. No outro dia telefonei para o FMI para perguntar o que
aconteceria se eu chutasse o Malan.
- E o FMI?
- Não disse nada, mas
fez um ruído estranho. Algo como um "Pssssss..."
- Melhor não tocar no
Malan.
- O pior é que, se cairmos
juntos, ele abre uma consultoria e se dá bem.. Todos os ministros
que se dão mal no governo se dão bem aconselhando os outros.
E eu o que faço?
- Você sempre pode dar
aulas de novo.
- Sei, não. Do jeito
que andam me tratando, não sei se conseguiria dominar uma classe
como antes. Já posso ouvir as piadas. "Professor, o senhor tem certeza
do que está nos ensinando? Não é melhor checar com
o ACM?" E as risadinhas, e os aviõezinhos, e...
- Mas você está
mesmo pensando em largar o governo?
- Era sobre isso que eu queria
lhe falar. Assim, cara a cara, só nós dois. O que você
acha?
- Você quer renunciar?
- Não.
- Olha que o país está
uma merda, e só vai piorar com essa política econômica
que você não poderia abandonar nem se quisesse. Paris, por
outro lado, está uma maravilha.
- Não renuncio.
- Aqui, o que está por
vir são mais protestos, sua popularidade ainda mais baixa, seus
aliados fugindo, seus inimigos crescendo, seus problemas se multiplicando.
Já em Paris você sabe o que está por vir?
- O quê?
- A primavera.
- Não renuncio.
- Bravo. Eu sabia que podia
contar com você. Não renunciamos! Não é o país
que está uma merda? Pois o país que renuncie. Só mais
três anos de renúncia, o que é isso para quem já
se sacrificou tanto? O país que agüente. Eu estou ótimo.
- Você parece ótimo.
- Você também.
- E essa barba, sai ou não
sai?
- Vamos lá!
- Adoro quando você sorri
assim.
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