Uma revolução
desarmada, por Ana Candida Echevenguá
Os trabalhadores rurais do Brasil são
protagonistas da 'maior reforma agrária já realizada na face
da terra': convivem com a miséria, a exclusão e com a falácia
da propaganda oficial do governo. FHC divulgou que, até outubro
de 2001, assentou 60.153 famílias, e obteve 1.812.056 hectares,
incluindo todos os programas e modalidades de obtenção de
terra. O Incra desmentiu tais dados: até dezembro de 2001, foram
assentadas 33.269 famílias, e obtidos 1.316.757 hectares de terras.
A publicidade do governo é enganosa. 60% das famílias assentadas
e 75% das áreas de terras obtidas pelo programa de reforma agrária
durante o governo FHC ocorreram na Amazônia. Por quê?
Tanto a mão-de-obra
como as unidades produtivas viabilizarão o desenvolvimento de commodities
agrícolas na fronteira Norte, grande agronegócio daquela
região, voltado para o mercado internacional, especialmente para
as regiões ligadas pelo Pacífico. O Sul teve a menor participação
no total das terras obtidas pelo programa, com apenas 2% do total, no mesmo
período.
A história comprova
a luta do rurícola contra a espoliação, dominação
política, fome e miséria: produto secular da supremacia do
coronelismo e do latifúndio. Em 1893, vinte mil trabalhadores sem
terra, liderados por Antônio Conselheiro, invadiram a Fazenda Canudos
e fundaram uma comunidade onde todos faziam jus à terra e dividiam
igualmente o produto do trabalho. A República, ameaçada,
destruiu Canudos, dizimando sua população. No fim dos anos
50, surgiu no RS o Movimento dos Agricultores Sem Terra – MASTER, com gaúchos
assalariados rurais, parceiros e minifundistas. A ditadura de 1964 exterminou
este e outros movimentos de luta pela terra.
Como o novo governo militar
implantado queria mudar o Brasil rural pelo urbano industrializado, mentiu
que investiria na agricultura para financiar a industrialização.
Vestiu a camiseta da reforma agrária, criou o Estatuto da Terra
e instituiu os Títulos da Dívida Agrária, para pagamento
pela desapropriação de latifúndios improdutivos. Isso
não saiu do papel!
Ao contrário, acelerou-se
a concentração da terra na mão da minoria, principalmente
em função do processo de apropriação da terra
na Amazônia pelo capital internacional. Tal projeto desenvolvimentista
excludente incitou a luta do trabalhador rural, com o apoio da igreja progressista
inspirada pela teologia da libertação. A Comissão
Pastoral da Terra ajudou o nascimento do MST, cuja luta inicial foi a ocupação
da gleba Macali, RS, por mais de 100 famílias, em 1979.
A luta continua! MST é,
hoje, a principal organização civil de resistência
contra o injusto sistema agrário nacional, com proposta de resgate
da cidadania aos excluídos; é admirado, nacional e internacionalmente,
por sua organização ao ocupar latifúndios improdutivos
que já foi julgada, pelo Superior Tribunal de Justiça, como
forma legítima de pressão política. Promovendo uma
reforma agrária autêntica, elaborada não em gabinetes
do poder mas em barracas de plástico e sustentada pela lei, o MST
concretiza uma revolução sem precedentes, amparada na força
da argumentação, na vontade das maiorias e não de
um partido político ou um punhado de generais.
É uma revolução
que impõe também o devido uso da propriedade, social, econômica
e ecologicamente. Este fenômeno repercute no exterior e supera obstáculos
considerados intransponíveis, como o poder dos fazendeiros, da mídia
e do governo. A capa da revista Time de 19 de abril de 1998 mostra um homem
com a camiseta do MST. Abaixo da manchete "Brazil's landless rebels", vem
a chamada:
"The radical movement
Sem Terra uses the tools of capitalism to confront Cardoso Goverment" (O
movimento radical Sem Terra usa as armas do capitalismo para confrontar
o governo Cardoso). A matéria conta métodos do "guerrilla
capitalism": as ocupações, a produção agrícola
direcionada ao mercado, o sucesso das cooperativas nos assentamentos e
o marketing que, segundo a Time, conquista a simpatia do mundo. El País,
El Clarín e Le Monde Diplomatique já publicaram diversas
reportagens sobre os sem-terra brasileiros.
O MST já recebeu
um prêmio da Unicef por seu projeto de educação, três
prêmios de comissões internacionais de direitos humanos, o
Prêmio Rei Balduíno, concedido pelo rei da Bélgica,
como organização que luta pelo desenvolvimento, e o Nobel
alternativo da Fundação The Right Livelihood Awards do parlamento
sueco. Um de seus assentamentos – Santa Marina, em Paranacity – recebeu
o Prêmio Internacional de Inovação Tecnológica,
concedido pela Associação dos Engenheiros da Catalunha, destacando,
entre seus projetos, o da indústria de secagem de frutas à
base de energia solar. A universidade é outro pólo de observação
e divulgação do MST e da questão agrária brasileira.
Uma dezena de teses sobre o tema foram apresentadas na Universidade de
Paris nos últimos anos e o MST recebe, em média, vinte pesquisadores
por ano de universidades estrangeiras que preparam teses de mestrado e
doutorado.
Há curiosidade
no exterior sobre um movimento que nasceu do segmento mais desprovido de
recursos do Brasil e pacificamente desafiou um governo baseado na concentração
de renda e de propriedade. Nosso Brasil tem jeito? O MST diz que sim desde
que "... o povo se levante, se organize e vá para as ruas, para
lutar por seus direitos históricos...".
Ana Cândida Echevenguá, OAB/RS
30.723, advogada atuante em Porto Alegre, RS
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